O Causo do Velório
Num dia qualquer, morreu no cortiço um de seus antigos moradores. Eu tinha uns nove anos à época.
Era o Seo Ambrósio. Um senhor negro, de cabelos brancos encarapinhados e com autêntica cara de bonzinho. Respeitado entre os vizinhos, atraía principalmente a atenção de nós, crianças, pois sempre nos cativava contando histórias do folclore caipira, com o objetivo de nos ensinar bons modos por meio de exemplos construtivos embutidos nas próprias narrativas.
O fato é que ele morreu. A razão da morte não sei até hoje; só sei que não era muito velho. O velório aconteceu na pequena sala de sua casa, que se localizava bem ao final do terreno do cortiço.
O movimento de pessoas era intenso, um entra e sai danado. Muita gente foi marcar presença e prestar solidariedade à viúva. Não me lembro, de fato, se o casal tinha filhos.
A cena de um velório, para os olhos de uma criança, era assim: um caixão preto sobre dois cavaletes de madeira e quatro castiçais de prata — daqueles altos, de pé —, com grandes velas acesas dispostas uma em cada canto do esquife. A pesada tampa repousava encostada num dos cantos da sala, e o corpo do defunto, envolto em pétalas de rosas, jazia coberto por uma mortalha branca. Havia flores e mais flores espalhadas por toda a sala e pelos corredores.
A minha perspectiva da cena era mais ou menos a seguinte: minha altura era uns vinte e poucos centímetros menor que a altura em que o caixão se encontrava do chão. Eu não conseguia ver o corpo lá dentro, mas enxergava perfeitamente os sapatos pretos do defunto sobressaindo na ponta do esquife. Estavam tão bem engraxados que roubaram a minha atenção.
Os pés estavam fortemente amarrados um ao outro por um cordão branco. Lembro que perguntei a alguém o porquê daquilo. A resposta que me deram foi assustadora: os pés estavam amarrados para não se moverem para fora do caixão. Ora, o Seo Ambrósio estava morto. Ou não? Como é que os pés de um morto se mexeriam sozinhos?
Fiquei o tempo todo vidrado naqueles sapatos, morrendo de medo de que o cordão se soltasse e os pés pulassem para fora.
Foi meu primeiro contato com a morte. Nunca tinha visto um defunto nem de perto, nem de longe. Um velório, então, nem pensar. Tudo aquilo me parecia surreal. Além dos sapatos, outras duas coisas me intrigaram: as narinas preenchidas com algodão e um barbante amarrando o queixo.
Curioso, subi numa cadeira para espiar o rosto do Seo Ambrósio. Ele parecia dormir. Sereno. Suas mãos, cruzadas sobre o peito, seguravam um escapulário. Era um católico fervoroso, daqueles que iam à missa diariamente. A igreja mais próxima do cortiço era a paróquia do Colégio Santo Agostinho, na Rua Apeninos; dava para ir a pé. Lembro-me agora de que, na parede da sala, havia também uma pintura de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ao lado do caixão, a viúva não arredava o pé. Chorava, acariciando a cabeça do marido, e sussurrava passagens de uma vida a dois que só importavam a eles. Entre murmúrios, com a voz embargada e cortante, ela relembrava as peripécias que ambos enfrentaram para sobreviver e levar uma vida digna. O pranto dela me tocou. Comecei a chorar também — mas, para ser bem honesto, o meu choro era de puro medo.
Envergonhado pelo pavor que sentia, saí da sala. Ao virar à direita no corredor em direção à rua, dei de cara com meu amigo gordo e de franjinha bloqueando a passagem: o Rogério. Tinha a minha idade, mas o dobro do tamanho. E aproveitava-se disso, usando o peso e a força para ser sempre obedecido. Ele não me deixou passar. Espalmando a mão no meu peito, desafiou-me a voltar à sala e tocar no defunto. Disse que, se eu fosse homem — homem de verdade —, deveria encostar no morto duas vezes.
Para me "encorajar", avisou que iria primeiro. E se eu não fosse por bem, iria por mal, e eu carregaria o fardo de ser chamado de mulherzinha para o resto da vida. O pânico se instalou. Paralisado, sem saber o que fazer, percebi que, no fundo, a intenção sádica dele era pior: queria que eu colocasse as mãos nos sapatos do Seo Ambrósio e desamarrasse o cordão.
É nessas horas que o coração dispara, a respiração falha e você tenta sugar o ar de qualquer jeito. As mãos suam frio, o corpo gela e os olhos já não focam em nada — ficam alheios a tudo, meio esbugalhados, encarando o infinito. Uma dor aguda no estômago acompanha todos esses sintomas. E as pernas... ah, as pernas bambeiam, perdem a sustentação, e você tem a mais absoluta certeza de que vai desabar no chão.
Percebendo a minha inércia, Rogério puxou-me bruscamente pelos braços e fui arrastado de volta para a sala. Perto do caixão, o pároco de Santo Agostinho agora conversava com a viúva. As velas crepitavam, soltando estalidos incessantes que só aumentavam o meu terror. Várias pessoas acompanhavam o velório sentadas em cadeiras dispostas junto às paredes.
O Rogério foi me empurrando até o canto onde descansava a tampa do esquife. Com uma força exagerada, prensou-me contra a madeira inclinada. A tampa cedeu, e o raspar estridente da madeira no piso provocou um sobressalto na sala inteira. Nisso, o safado soltou o meu braço; perdi o equilíbrio e, com o peso do meu corpo, a base da imensa tampa negra bateu forte contra a parede e começou a tombar para o lado.
O pároco, ao ver o desastre iminente, deu um bote rápido em minha direção. Esticou os braços e conseguiu amparar a madeira no ar, milésimos de segundo antes que ela desabasse em cima de alguém. Nossa... de tão assustado, eu me senti mais morto ali do que o próprio Seo Ambrósio.
Balbuciei um pedido de desculpas ao padre, agachei-me e encolhi. Fiquei sentado no chão, com os braços cruzados sobre os joelhos, e afundei a cabeça. Decidi que não sairia dali por nada, pois sabia que, lá fora, o Rogério continuaria me infernizando para tocar nos pés do cadáver.
Ainda no chão, passei a monitorar os movimentos do Rogério.
Ele estava posicionado estrategicamente ao lado do caixão, na medida exata para alcançar o cordão branco. Disfarçava tão bem que parecia imerso numa oração profunda, sofrendo em silêncio pelo finado. Olhou de esguelha e, certificando-se de que ninguém prestava atenção, ergueu sorrateiramente a ponta da mortalha, como se procurasse algo intrigante ali por baixo. A mão alcançou o laço do cordão. Ele puxou uma das pontas. O nó se desfez e, numa fração de segundo, ele recolheu as mãos para os bolsos da calça, abaixou a cabeça e virou estátua.
Foi então que as pernas do morto começaram a se abrir, muito lentamente...
(Hoje, adulto, entendo a física da coisa. A culpa foi do rigor mortis — um fenômeno causado por uma alteração química que gera o enrijecimento dos músculos do cadáver horas após o óbito. Como os pés haviam sido amarrados à força sob forte tensão, ao terem a amarra desfeita, os membros repuxaram violentamente, como uma mola repentinamente liberada. Mas, naquela sala de cortiço, ninguém precisava de aula de biologia).
O que se seguiu foi uma confusão dos diabos! Uma gritaria e uma histeria coletiva como nunca mais presenciei na vida.
Uma senhora, que havia acabado de chegar, aproximou-se para dar os pêsames no exato momento em que as pernas do Seo Ambrósio se afastavam no ar. Ela soltou um guincho estridente de pavor e apontou, trêmula, para o esquife. As pessoas sentadas olharam para aquele "fenômeno", deduziram instantaneamente que o defunto havia ressuscitado e começaram a berrar também. Saíram em disparada, atropelando-se rumo à porta como se fugissem de um incêndio. Para coroar o "estouro da boiada", a pesada tampa do caixão, esbarrada na fuga, finalmente resvalou e caiu de vez, produzindo um estrondo ensurdecedor.
Em questão de segundos, não restou viva alma na sala. Sumiu a viúva, sumiu o povo e sumiu até o padre. Aliás, o religioso foi o primeiro a ficar abestalhado com a cena: começou a fazer o sinal da cruz de forma frenética e repetida, de olhos bem apertados. Paralisado de pânico, seu corpo acabou virando um obstáculo no meio do caminho. No fim, o pobre coitado levou tanto empurrão da turba que evaporou dali; ninguém mais o viu.
Eu, que já estava no chão, por lá fiquei. A minha intuição infantil avisava que as pernas se mexeriam se o barbante fosse solto — não sabia explicar o porquê, mas, no íntimo, aguardava por aquilo. Assistir de camarote ao terror daquelas pessoas foi inesquecível. Só não afirmo que foi divertido porque, contagiado pela histeria generalizada, por uma fração de segundo eu também acreditei que o Seo Ambrósio tinha acordado.
O covarde do Rogério não ficou para contemplar a própria obra de arte; deu no pé junto com a manada. No silêncio esvaziado da sala, o corpo do Seo Ambrósio adotara uma postura no mínimo ridícula. A cabeça e os braços não se moveram um milímetro, mas uma das pernas subiu uns vinte centímetros além da borda do caixão. A mortalha branca subiu junto, criando um tétrico "efeito cabana".
Fui o único a fazer companhia para o defunto. Até hoje não sei se por estar catatônico de medo ou se, no fundo, eu já antecipava o desfecho. Lembro-me de que, ao ser arrastado de volta para a sala, cheguei a cogitar ser eu mesmo a puxar o cordão, só para provar a ele que era corajoso e homem de verdade. Mas, cá entre nós: eu estava me cagando todo com a situação e jamais teria audácia para cometer um absurdo daqueles.
A bagunça só terminou com a chegada do delegado da 5ª DP, que ficava ali na mesma rua. Ele adentrou o cortiço trazendo em seu encalço uma autêntica procissão mista de curiosos e medrosos de plantão. Quando pisou na sala e deu de cara com a cena bizarra daquela "cabana" erguida pela perna sob o lençol, o delegado estancou e soltou um sonoro:
— Puta que o pariu!
Em seguida, virou-se para a multidão encolhida às suas costas e esbravejou, furioso, que tinha muito mais o que fazer da vida do que perder tempo amarrando pé de morto.