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O Causo do office-boy

O chute partiu de um sujeito saído de uma gafieira fora de hora: calça de linho branco, mocassins claros e camisa florida aberta no peito.
O Causo do office-boy
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O causo do office boy
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Aos doze anos, o chão costuma ser mais interessante do que o horizonte. Caminha-se olhando para as pedras da calçada por timidez ou pelo hábito de chutar tampinhas de garrafa. Naquela tarde abafada de 1970, a Alameda Nothman, nos fundos da Estação da Luz, oferecia pouco além do calor do asfalto e da obrigação de levar uma pasta de plástico azul até o banco. Debaixo do braço, ela guardava borderôs que o menino não entendia e uma responsabilidade que ele ainda não sabia carregar.
A dois passos do seu sapato gasto, um pacote de jornal do tamanho de um punho rolou pela sarjeta.
O chute partiu de um sujeito saído de uma gafieira fora de hora: calça de linho branco, mocassins claros e camisa florida aberta no peito. O homem parou, simulou espanto e apontou o embrulho:
— Esse pacote é seu, garoto?
— Não é não, senhor.
— Vamos ver o que tem dentro? Eu estou curioso, vamos abrir! diz com fala rápida.
O garoto encolheu os ombros, os braços colados ao tronco e as sobrancelhas franzidas naquela desconfiança arisca de quem cresceu em bairro de subúrbio. Mas a curiosidade tem dedos rápidos. Com a destreza de quem desembrulha pão na padaria, o homem abriu a folha amarelada. Dentro, cinco maços compactos de notas de dez cruzeiros. O rosto do garoto desarmou-se por completo: a boca entreaberta, as pupilas dilatadas fixas no verde do dinheiro e as narinas entreabertas denunciando a respiração curta.
— Olha em volta. Tem alguém vigiando?
O menino girou o pescoço com movimentos truncados, o queixo colado à gola de tergal engomada. Uma velha puxava um carrinho de feira na esquina, dois ônibus fumegavam na direção do Centro. Ninguém olhava para eles. O homem quebrou o elástico com estalo seco e dividiu a pilha em duas:
— Meio a meio. Metade minha, metade sua.
— Não quero não, senhor. Não é meu.
— Deixa de ser bobo, moleque. É achar ou largar pro lixo. Vamos até a esquina; se não aparecer o dono, vai cada um pro seu lado com a vida arrumada.
O menino engoliu a saliva em seco, a garganta travada em nó visível na pele esticada do pescoço. Deu os primeiros passos arrastados ao lado daquele estranho, com os olhos vidrados no chão enquanto calculava mentalmente quantas bolas de couro e garrafas de guaraná cabiam em meio quilo de cruzeiros.
Não andaram vinte metros. Veio o berro pelas costas:
— Ei, vocês aí! Parem aí!
Um sujeito balofo vinha no trote, arrastando o corpo pesado sob uma camisa ensopada, os cabelos empastados na testa:
— Vocês viram um pacote de jornal? Perdi agora pouco, estou louco procurando!
O calça-branca aprumou a espinha com a dignidade de um escrivão:
— Vimos nada, chefe. Se tivesse visto, já tinha devolvido. E você, menino?
O homem de camisa florida cravou a mão ossuda no ombro do garoto, exercendo uma pressão sutil para baixo. O menino sentiu o peso dos dois adultos sobre si. O sangue fugiu-lhe do rosto, deixando a pele num tom cinzento de parede velha; os lábios começaram a tremer e a ponta das orelhas ardeu em brasa. Baixou a cabeça, incapaz de sustentar o olhar do gordo:
— Também... também não.
O gordo soltou um lamento rouco, passou as costas da mão suada pela testa e deu meia-volta com passos moles. O calça-branca esperou o sujeito tomar certa distância, deu uma cotovelada mansa nas costelas do garoto e mudou a voz para um tom compassivo:
— Coitado do gordo. Isso aí é desgraça na certa. A gente devia devolver.
— É... tá certo — balbuciou o menino, num fio de voz que mal passou pelos dentes cerrados, as bochechas corando com o alívio imediato de não precisar sustentar a mentira.
O sujeito pôs dois dedos na boca, soltou um assobio que cortou o ar da alameda e berrou:
— Ei, gordo! Volta aqui! O moleque deu uma topada nele achando que era lixo!
O homem retornou afobado, a respiração ruidosa de asmático. Pegou o embrulho, abriu as dobras de papel, conferiu as beiradas das cédulas e bateu palmas:
— Vocês me salvaram! Esse dinheiro é do seu Carlos, dono do posto aqui na esquina. Se perco isso, vou parar na cadeia. O homem vai dar uma gratificação generosa. Vai você lá buscar, garoto, que você é quem merece.
— Quero nada não, senhor. Precisa não — gaguejou o menino, recuando meio passo, as mãos trêmulas apertando a pasta contra a barriga.
— Pois eu vou — atalhou o calça-branca, soltando do pulso um relógio prateado de pulseira metálica. — Fica com meu relógio em garantia, gordo. Moleque, segura as pontas aí que eu volto num pulo.
Sumiu na dobra do quarteirão. Bastaram três minutos para o sujeito retornar em passos firmes, o mesmo pacote fechado sob o braço e duas cédulas novas abertas na mão:
— Passa aqui meu relógio, gordo. E olhem o que o seu Carlos me deu. Garoto, falei pra ele que quem achou foi você. O homem quer apertar sua mão e pagar sua parte. Vai lá.
O garoto abriu um sorriso largo, desarmado e infantil. A ilusão de uma recompensa honesta apagou qualquer vestígio de medo em suas feições; as sobrancelhas desanuviaram e os olhos brilharam com o entusiasmo fácil dos tolos.
— Alto lá — travou o gordo, segurando o braço franzino do menino com dedos grossos. — Ele deixou o relógio dele. Você também precisa deixar uma garantia. O que tem aí? Carteira? Relógio? Passa aqui. Vamos te esperar aqui moleque. Vai lá buscar sus recompensa.

Sem hesitar um segundo, cego pela certeza do prêmio, o menino desabotoou do pulso o relógio ganho de aniversário e puxou do bolso traseiro a carteira de courvin vermelho. Nela estavam seu primeiro ordenado do mês e as notas da firma para pagar títulos em cartório. Depositou tudo nas mãos do gordo com a ingenuidade de quem oferece um tostão na igreja. Agarrou o pacote de jornal e correu até o posto, leve como quem sobe ao palco.
Sob a cobertura de amianto, dois frentistas esguichavam querosene no chão:
— Onde tá o seu Carlos?
— Que Carlos, moleque? O dono aqui chama Mário e hoje nem veio.
O menino travou diante da bomba de combustível. O ar cheirava a graxa e gasolina. Com os dedos rígidos, rasgou o jornal. Os cinco montes tinham a espessura de duzentas cédulas, mas apenas a primeira de cada maço era uma nota verdadeira de dez cruzeiros; o miolo inteiro era formado por tiras de jornal velho, cortadas com régua e gilete no tamanho exato do dinheiro do governo.
O garoto desabou sentado na mureta do posto. O queixo tremeu, as lágrimas escorreram quentes abrindo caminhos claros na poeira da bochecha. Não lhe restava uma moeda sequer para a catraca do ônibus.

Arrastou-se até o posto policial ao lado da rodoviária, apoiou o peito no balcão alto de madeira e tentou articular a denúncia. O plantonista olhou para o embrulho esfarrapado e nem tirou o palito dos dentes:
— Dá o fora, moleque. Você não foi assaltado coisa nenhuma. Você foi otário e quis passar a perna nos outros. Some daqui.
A polícia da Estação da Luz não tinha tempo a perder com quem tropeçava na própria cobiça.

Foram seis quilômetros a pé até a periferia, sob o asfalto que ainda fumegava no fim da tarde. O sapato furado ardia a cada passada. Em casa, o pai ouviu o causo sem pronunciar palavra até o fim. A surra com a cinta de couro que se seguiu não foi pelo prejuízo material, mas para tirar do sangue a fraqueza de dar ouvidos a estranhos na calçada.

Na manhã seguinte, no escritório da Rua Cubatão, no Paraíso, o gerente pegou a pasta plástica azul, recolheu o crachá e despachou o garoto para o corredor sem olhar duas vezes.

A esperteza da rua não escolhe idade para cobrar pedágio. Ela apenas aguarda a fração de segundo em que o homem — mesmo o homem de doze anos — troca a prudência do trabalho duro pela promessa fácil do dinheiro que cai do céu. Quem aceita dividir o achado na calçada quase sempre termina pagando sozinho a conta da própria ingenuidade.