O Fantasma da saudade
Eram 3h da madrugada. Uma baita insônia e sozinha em casa já há 3 meses. Desde que meu marido infartou e se foi. Nem filhos tenho. Essa insônia da saudade acaba comigo.
Estava na cozinha tomando um chá. Ouvi um baque seco de metal contra a madeira. Algo pesado despencou no andar de cima, ecoando direto na cozinha. A xícara de chá tremeu com as minhas mãos. Pensei na porta da rua . Estava trancada. A respiração travou na garganta. Antes que eu pudesse racionalizar a queda, o som continuou. O atrito de um passo arrastado no assoalho superior. Alguém, ou alguma coisa, estava se movendo onde o espaço deveria estar completamente vazio.
Sem fazer nenhum ruído, coloquei a xícara de chá na mesa e me Levantei da cadeira. Abri a gaveta da pia e peguei uma faca. Era o que tinha para me defender. O pavor que tomou conta da minha musculatura era real, travei. Tensa. O medo era de um invasor ter entrado para roubar algo. Além de tensa eu estava era apavorada. Minha mente exausta amplificava pressão psicológica.
A morte na família altera a percepção da casa. A alvenaria permanece no lugar, mas a acústica do ambiente entra em colapso. O luto severo não é um estado de espírito abstrato, é um estrago biológico que bagunça a forma como o cérebro faz a leitura do mundo. A falta de sono crônica destrói a capacidade de separar um acontecimento real de uma invenção da própria cabeça.
Subi os degraus da escada me apoiando na parede e segurando a faca com toda a força que tinha. O escuro escondia os cantos do corredor superior. O coração disparou, batendo forte contra o peito, preparando o corpo para encarar o impossível. Parei no último degrau. A porta do nosso quarto estava encostada. Senti uma corrente de vento gelado passar por aquela fresta estreita e bater no meu rosto. A janela lá dentro estava escancarada. Meu marido tinha a mania de abrir totalmente as janelas nas noites em que perdia o sono.
Através da fresta, eu vi a sombra.
Uma silhueta escura estava projetada na parede do fundo. O formato exato de um homem de pé. Os ombros largos, a postura um pouco curvada. O vento soprou forte lá fora, invadiu o quarto com violência e a sombra balançou. Ela tinha movimento. O meu cérebro, treinado por décadas a conviver com aquele homem, reconheceu a imagem na mesma hora. A paralisia desceu pelas pernas. O medo se misturou com uma vontade irracional, quase primitiva, de que a visão fosse de fato ele.
O coração exigia que eu acreditasse na sombra, mas a razão cobrava a realidade dos fatos. Ficar ali parada no corredor apenas alimentava a ilusão. Entrar no quarto significava encarar de frente que ele tinha ido embora para sempre.
Empurrei a porta com a mão aberta. O vento da rua varreu o cômodo. No chão, perto da janela, o abajur de leitura feito de bronze estava caído e rolava levemente pela madeira. Aquele era o estrondo forte que escutei da cozinha. E, raspando sem parar no piso, a bainha da cortina grossa sacudia solta. Era esse o som do passo arrastado. O tecido varrendo o chão de um lado para o outro.
Mas a sombra continuava lá, projetada na parede, balançando no ritmo do vento.
Levantei a mão trêmula até o interruptor. Apertar aquele pedaço de plástico exigia uma coragem física absurda. Acender a luz era apertar o botão de desligar daquela esperança louca.
O clique soou alto. A luz branca inundou o quarto.
A sombra desapareceu na mesma hora. Não havia ninguém ali. O quarto era feito apenas de móveis, roupas e silêncio. A luz iluminou a cortina esbarrando no casaco de lã dele, que continuava pendurado na porta do guarda-roupa. A luz amarela do poste da rua, entrando pela janela aberta, batia no casaco solto e desenhava o contorno humano exato na parede. O vento dava vida ao tecido.
Sentei na beira do colchão e a respiração voltou ao normal aos poucos. Olhei para o abajur de bronze tombado no chão e um riso curto, exausto, escapou pela garganta. Carlos sempre repetia a mesma piada nas noites de bom humor: "Julia, fica esperta. Quando eu morrer, vou voltar de madrugada só para puxar o seu pé." Se aquilo fosse uma visita real, ele teria escolhido a beirada da cama, não a janela escancarada. A lembrança quebrou a tensão do quarto e relaxei. Uma vontade louca de fazer xixi surgiu. O pavor me fez contrair as coxas e quando relaxei, quase não segurei. Corri para o banheiro e respirei ouvindo meu próprio xixi escoar.
O verdadeiro trauma, silencioso e cruel, é a mente estimulando a negação da morte repentina fazendo crer que o evento não aconteceu. E tudo está igual ao que era antes.
Conheço bem esse truque da nossa biologia. Quando meu pai era vivo, ele tinha uma tosse seca que ecoava pela casa inteira. Era o som de fundo que confirmava que ele estava na sala. Quando ele morreu, o silêncio tomou conta de tudo. Mas, algumas semanas depois, deitada no escuro do meu quarto, eu continuava escutando a tosse dele. O som era nítido e no mesmo volume de sempre. Como se ele estivesse ali sentado, lendo o jornal.
O luto cria esses fantasmas práticos. O cérebro sofre uma crise de abstinência quando temos que encarar a morte de um ser querido. Ele acessa a memória e reproduz a tosse antiga, ou aproveita o vento derrubando um abajur e a sombra de um casaco vazio para nos dar um conforto falso, mesmo que dure poucos segundos. É um truque sujo provocado pelo nosso instinto de querer que a pessoa ainda esteja no cômodo ao lado.
A dor estica os limites da realidade. Passei a mão no travesseiro que pertencia a ele. O tecido frio cheirava a amaciante, não tinha o calor de um corpo humano. A pessoa foi embora. Deixar o casaco pendurado na porta, manter as camisas na gaveta ou os sapatos alinhados no canto do quarto alimenta ativamente essa mentira. Essa arrumação intocada faz a cabeça continuar inventando sombras e barulhos no escuro.
O quarto não precisa ser um altar de preservação. Mas o apego fala mais alto.
O choro contido não resolve a tristeza do dia seguinte. Continuar existindo requer a coragem de desmontar o cenário antigo. Amanhã cedo, talvez eu precis de caixas de papelão. Talvez eu doe aquelas roupas. Sei que me falta uma atitude prática para apagar as sombras e calar os sons imaginários e devolver o silêncio real à casa. Mas viúva estou.Preciso ainda de um tempo.