O Causo da Menina dos 4
"Às vezes, até mesmo viver é um ato de coragem". Sêneca, do livro Cartas a Lúcio :
Quando adolescente, precisamente no ano de 1974 eu tive uma experiência muito próxima com um suicida. Meus 16 anos de idade não me permitia filosofar muito nem tampouco entender com a clareza necessária as razões que levavam uma pessoa a se suicidar. Acompanhar um suicídio é no mínimo uma experiência de pertubadora cumplicidade.Tínhamos um grupo de amigos que se formou juntos no ginásio. Éramos em 4 meninos e uma menina.Morávamos na mesma rua, a Saturno, na Aclimação. Essa rua é muito próxima do parque da aclimação, região que interliga os bairros do Paraíso e o Cambuci. É uma rua pequena e muito tranquila, Nossas casas e apartamentos ficavam bem no início, junto a Praça do Polidoro, uma pequena praça muito charmosa, com uma fonte no centro e muito arborizada. Essa praça, com seu perímetro circular, era rodeada de casas e prédios. Era uma área bem tranquila pra se viver nos anos 70.Nosso grupo era animado e bem coeso. Não tínhamos disputas entre personalidades incompatíveis, tampouco tinhamos um líder envolvente. Era um bando de amigos, simplesmente.As famílias eram quase normais . Se conheciam mas não conviviam.Nossa rotina era estudar. Os 5 agora estavam no primeiro ano do colegial.A menina do grupo, Teresa, era cortejada pelos 4 mas ela só dava bola pra um cara do terceiro colegial. Mais velho e sei lá, mais bonito talvez. Nenhum de nós havia sequer experimentado um beijo dela. Hoje, eu classifico isso de total falta de competência da nossa parte porque ficávamos tanto tempo juntos que era bem possível acontecer de tudo nesse campo romântico. Mas a amizade falava mais alto.Teresa começou a namorar com o cara no início do ano letivo de 1974. Seria um ano típico se não fosse esse namoro que mudou nossas vidas.O casal de namorados se encontrava escondido dos pais de Teresa porque ela ainda não tinha autorização para namorar. Assim a escola passou a ser o principal local de encontro para os dois.Teresa ficou deslumbrada com o namoro. O garoto tinha lá suas qualidades : gentil, amável, sedutor e boa pinta. Era uma difícil competição para alguém do nosso grupo.Acompanhamos esse namoro bem de perto. Assumimos a complicada posição de maninhos dela e de cunhadinhos dele.Teresa tinha maior afinidade comigo e isso a permitia abrir seu coração para desabafar seus medos, ansiedades e desejos. Reconheço que ser confidente de uma menina que desabrochava como mulher é inquietante porque é ridiculamente apaixonante e frustrante ao mesmo tempo. Eu me apaixonei por Teresa. Minhas conversas com ela sobre seu idílio só aumentavam meu amor platônico. Eu me imaginava no lugar do seu amado de forma mais competente que o próprio. Testemunhei suas emoções com o seu primeiro beijo, o seu primeiro "amasso" e suas angústias com as incertezas de ser plenamente correspondida. Ouvia atentamente sua leitura das cartas de amor que ele mandava diariamente. Algumas vezes cheguei a palpitar nos seus escritos para ele, sugerindo que não fosse tão melosa ou ardente...E após 3 meses de namoro eles transaram. Meu coração ficou partido em milhares de pedaços.Ela se deliciou me contando os detalhes de como foi legal perder a virgindade amando perdidamente e que o namorado tinha sido amoroso o suficiente para ela se sentir segura e tranquila na sua primeira vez.
Mas o que era motivo de euforia e mais amor, virou imediatamente um pesadelo...Teresa não menstruou.Eles não usaram camisinha e ela se perdeu contando os dias férteis na sua tabela imaginária. Grávida com toda a certeza ! Eu fui comprar o teste de gravidez na farmácia e juntos verificamos o resultado do xixi : bebê ! Teresa caiu em desespero e eu em parafuso.
Parecia que eu era o pai da criança. Nervoso e totalmente novato nesta área eu não sabia o que fazer.Perguntei pra ela :- E agora ?- Puta, que merda eu fiz ! foi sua resposta...demonstrando uma raiva consigo mesma pela negligência com a proteção que deveria ter tido. Caiu em prantos e chorou um bom tempo. Eu fiquei ali parado, bestificado, me sentindo um pai de verdade. Acho que o amor que eu sentia por ela me faria assumir essa criança se fosse necessário. Besta , besta, pensamento besta...O namorado quando soube da notícia, pirou ou melhor, surtou. Ficou tão desnorteado que repetia para ela que o filho não era dele, e que ela transava com os 4 amigos. Era uma vagabunda. E que todos na escola falavam dessa amizade grupal... e não iria assumir nada. "Você que se vire sozinha", gritou com ela.O rapaz desapareceu. Saiu da Escola na mesma semana que soube que ela estava grávida.Nunca mais soubemos dele.Teresa estava desconsolada. O namorado era um perfeito covarde e ela estava grávida. Sozinha .Os dias foram passando e seus pais nada percebiam. Apenas sua mãe controlava apenas a quantidade de absorventes da filha. Teresa pediu pra sua mãe comprar "modess" mas não disse se havia menstruado. A mãe entendeu que sim, para ela Teresa estava com a menstruação regular e boa saúde.
Teresa era magrinha e sua barriguinha não dava sinais de crescer e já estava com uma gravidez de 60 dias. Enjoava com o cheiro do cigarro ( todos nós já fumávamos escondido naquela época ) . Por ela eu parei de fumar e ela também. Teresa sentia muito sono. Dormia nas aulas e comia pouco. Estava abatida.Nesses dias, me recordo que eu não desgrudava dela. Parecia que eu era o pai daquela criança. Na verdade, o amor que eu sentia por ela aumentava dia a dia em razão da compaixão envolvida naquela grave situação. Teresa se apegou comigo tambem e não desgrudava um instante da minha companhia.
O QUE FAZER ? Era a pergunta que fazíamos todos os dias.Algumas das teorias que desenvolvemos juntos para solucionar o problema: a) ter a criança com o conhecimento de todos.b) ter a criança sem que ninguém soubesse, ou seja, fugir pra algum lugar !c) não ter a criança ! Mas essa hipótese já não teria respaldo de qualquer um medico, pois o bebê já estava com nome e sem sobrenome.Cada hipótese tinha seu lado doloroso. Aliás, não conseguíamos pensar em nada que nos animasse a enfrentar a situação com a coragem necessária porque estávamos desesperados com a incerteza do futuro.
Num final de tarde qualquer, Teresa estava bem agitada. Dava pra perceber que ela não estava bem. Acho que estava a ponto de ter um colapso nervoso. Eu perguntei o que estava acontecendo e ela foi direto ao ponto :- Eu vou dar um fim na minha vida. Eu não consigo enfrentar essa situação. Não posso viver assim. É demais pra mim. Tenho vergonha, dos meus pais, dos meus amigos, da escola, de todos e de tudo. Como vai ser a minha vida ? E eu não vou tirar a vida desta criança simplesmente. Se ela se vai eu vou junto...Teresa começou a chorar sem parar. Seu desespero era de dar dó.Aquela conversa me deixou muito assustado. Não consegui dizer nada, até porque ela chorava demais. Coloquei a cabeça dela no meu ombro e lhe acariciei até que ela começou a soluçar e pegou no sono. Ela dormiu quase uma hora. Nesse tempo fiquei pensando na sua motivação para o suicídio. Nossa, eu estava por demais assustado mas precisava fazer alguma coisa. Se ela fosse até ao fim com sua intenção eu não me perdoaria.
Eu tinha que ficar vigilante e avisar alguém da familia. Quem melhor ? o pai ? a mãe ? Meu Deus, me ajuda....A noite, já deitado, com as luzes apagadas eu olhava para o teto e pensava sobre o que fazer para evitar o pior. Dormi angustiado. No dia seguinte eu acordei com a sensação que já sabia o que fazer.Ainda hoje, passados tantos anos, eu ainda penso nesse drama e no seu desfecho. Me pergunto se poderia ter tido um final diferente...Era um pouco antes das 9h da manhã quando eu bati na porta do apartamento da Teresa. Ela não estava. Tinha saído bem cedo e nem café tinha tomado. Sua mãe, com o rosto preocupado, me disse que ela tinha ido fazer um trabalho de escola. A mãe pega no meu braço gentilmente e olha diretamente nos meus olhos e pergunta se algo estava acontecendo...o comportamento da filha não estava normal.Eu, cabisbaixo concordei que Teresa estava estranha e a primeira desculpa que me veio a cabeça foi:Ela não está bem. Está triste pois o namorado mudou de cidade...Saí do apartamento o mais rápido que pude e fui atrás de Teresa.
Me envergonho até hoje de ter-lhe mentido. Mas não consegui falar a verdade pra mãe dela. Não cabia a mim contar sobre a gravidez. Mas sobre a idéia do suicídio, sim.
Meu desespero para achar Teresa aumentava a cada minuto que passava. Meu medo é que ela se descontrolasse e buscasse a solução dos seus problemas no suicídio. Fiquei pensando onde ela poderia estar.E se a esta hora ela já tivesse dado cabo da sua vida ? Seria ela capaz ?
Pensei em um local provável : A laje de cobertura do prédio que ela morava. O acesso era pelo último andar, o 13o. Uma pequena escada levava a uma porta que sempre estava destrancada e dava acesso ao terraço do prédio. Era ali que fumávamos escondido com total tranquilidade . Era o nosso esconderijo. Muitas vezes ficávamos sentados na beirada do terraço, balançando as pernas no ar.
Ofegante cheguei ao terraço e lá estava ela. Sentada na beirada do parapeito . Silenciosamente fui caminhando até ela. Ela não ouvia meus passos porque o vento estava forte. Ia chover.Ela estava agitada. Seu tronco subia e abaixava sistematicamente como se estivesse rezando. Cheguei perto o suficiente para que ela me visse. Percebi, ao olhar para ela que estava de olhos fechados e a testa totalmente franzida. As mãos seguravam o filho em gestação.Sentei ao seu lado e encostei minha cabeça no seu ombro. Ela levou um susto mas rapidamente ficou calma. Fiquei quietinho do lado dela. O movimento de sobe e desce do seu tronco cessa e ela começa a chorar compulsivamente. TIVE MEDO.Começou a garoar e fazer frio. Coloquei meu braço em volta do seu ombro e com a mão direita cobri suas mãos sobre sua barriguinha e assim ficamos um tempo recebendo aquela garoa fria no rosto que se misturava às suas lágrimas e as minhas.
Não vimos o tempo passar e nem o zelador chegar com a mãe de Teresa. Sua mãe vê meu rosto de pânico e o de Teresa em lágrimas... A situação era tensa. Sua mãe,como um anjo, se ajoelha por trás e abraça a filha, garantindo que ela não se movesse mais e nem ficasse em panico. Mas Teresa, se agita e grita para a mãe:Mae, eu estou grávida !!!Não sei resolver isso não , não sei o que fazer. Vou acabar com tudo.Mãe...me ajuda por favor. Não quero magoar você e nem o papai. As lágrimas escorriam em nossas faces.Teresa soluçava sem parar.A mãe, colocou a mão no ventre da Teresa e calmamente disse :Filha, vamos enfrentar juntas essa situação.A mãe de Teresa olha para mim, como se eu fosse o futuro papai e diz : E você, também não se preocupe, vamos falar juntos com seus pais...e tudo vai se resolver.Naquele momento, fiquei calado como quem cala consente, mas não havia o que dizer. Depois tudo seria explicado.Sua mãe pediu para ficar a sós com ela.
Fiquei na porta olhando aquela cena de 2 mulheres se confortando frente ao desconhecido.Naquela manhã, quando a mãe de Teresa me questionou sobre o que estava acontecendo ela percebeu meu estado de desespero e deve ter rapidamente chegado a conclusão de qual era o problema rapidamente usando a intuição de uma mãe .E assim foi.
Teresa foi mãe de uma menina 6 meses depois.Eu e meus 3 amigos fomos pais eletivos durante os 2 primeiros anos até que ela foi para a faculdade em outra cidade. E a avó cuidou de Elis como se fosse sua própria filha. Elis nunca conheceu seu pai biológico. Mas conviveu com seus 4 tios postiços durante muito tempo.