O "Causo" da Bolinha de Luz
A primeira vez que encarei a morte, eu tinha 35 anos. Dividia um quarto de hospital e observava o teto. De repente, Vi um "espectro" passar pela porta fechada do quarto. O ambiente esfriou muito.
O espectro parou entre os dois leitos .Ele procurava um alvo específico: eu, ou o meu vizinho.
Coincidência ou não, 0 paciente ao lado aparentava ter a minha idade. Possuía minha estatura e cabelos escuros. A diferença entre nós resumia-se à quantidade de fios. Ele estava conectado com vária máquinas e artefatos. Por mim, ele devia estar na UTI.
A temperatura do ambiente continuou despencando. O ar condensou. Aquela anomalia deslizou até a cama ao lado e curvou-se sobre o rosto do vizinho, ficando quase encostado no nariz dele. O vizinho estava "apagado" e não percebeu nada do que acontecia. Eu, deitado, estava inteiro arrepiado e de medo, tossi várias vezes. Aquela "coisa", virou para mim e hesitou. Imaginei ela se perguntando: Qual desses dois? Pelo o que entendi rapidamente, o vizinho não era o "pacote"correto.
A entidade girou e fixou o foco em mim. "Aquilo" não vestia capuz nem carregava foice. Mas com certeza era a "Dona Morte". Tecnicamente, um ectoplasma. Uma massa de energia translúcida, de tom cinzento, flutuando a centímetros do chão. Não possuía contornos biológicos, mas projetava a silhueta oscilante de uma figura humana. O campo ao redor dela distorcia a luz da lâmpada.
Ela parou ao lado do meu travesseiro. E ela começou a se comunicar comigo. Mentalmente!!!
A transmissão era como um eco na minha mente. Sem rodeios, foi falando meu nome, nome do meus pais, e disse algumas coisas que só eu sabia.Conhecia meu prontuário "de vida". Sem dúvidas, o pacote era eu mesmo.
— Você entende quem sou eu. — A afirmação ecoou na minha cabeça como um trovão.
— Estou aqui para o sua passagem pelo portal.
O suor frio marcou minha testa. Ela não esperou resposta.
— Vamos mudar a seu padrão dimensional.
Vixe. Naquele momento, rezei "vários pais nossos" mentais tententando criar um escudo contra aquele "troço". Não rolou.
Então, tudo começou de imediato : o ectoplasma estendeu uma projeção de luz fria sobre o meu peito. Senti um peso denso esmagando as costelas. A pressão no esterno paralisou meus os pulmões. O monitor cardíaco apitou em um tom contínuo. Ocorreu o óbito clínico. Piiiiiiiiiiii. FUI !
Opa ! Algo ainda continuava : Meu pensamento ! comecei a raciocinar muito mais rápido. reparei que enxergava também e que eu também flutuava. Estava de pé, observando meu corpo biológico inerte no colchão. O ectoplasma aguardava ao lado. Decidi testar a interação.
— Dona Morte ? — chamei.
A névoa oscilou, registrando a interrupção.
— E agora ? — o apito está tocando e eu ainda estou vivo de alguma forma. E agora? ( o desespero era chocante)
A entidade chegou bem perto do que seria meu nariz e sugou a minha energia. Como minha sua estrutura era apenas uma bolinha de energia, desapareci naquela instante....
Ato 2: O confinamento consciente
Em uma velocidade ( de devia ser a da luz ) apareci em um espaço negro. A ausência de transição operou com brutalidade. O vácuo engoliu as paredes e as máquinas. O choque inicial foi a supressão das referências físicas. Eu não tinha mãos corporais ou gravidade. O espaço apresentava-se infinito e opaco.
Nesse ponto, o medo real se instalou. Uma angústia aguda, de natureza asfixiante. Eu estava consciente em uma dimensão sem limites. Percebi, com pavor infantil, mas natural, que eu não habitava o vazio. Eu era parte orgânica dele. Minha constituição reduziu-se a um fóton de energia pensante. Um ponto minúsculo de consciência dissolvido em um oceano de tinta preta.
A lucidez virou uma ferramenta de tortura. Lembrava do meu passado e da minha identidade. Essas memórias, no entanto, não tinham aplicação prática no escuro. O silêncio exercia compressão. Funcionava como uma força mecânica esmagando a minha existência. Tentei me deslocar. Não havia massa para mover.
A angústia escalou ao notar a ausência do tempo. não sentia o tempo passar. Existia apenas um pensamento no presente estático. Ser um fóton pensante, aprisionado em uma eternidade sem estímulos, gerou um pânico elétrico e, como eu era uma bolinha, sentia que me deslocava, mas não saia do lugar. Eu era o Pavor em formato de luzinha. Pavor do pensamento. Da razão. Eu raciocinava Raciocinava sobre o nada e sentia a perpetuidade. Mas acessava minhas memórias.
Qual o propósito de arquivar memórias se não há interlocutores? Para que manter a consciência sem a matéria tátil? O abandono cósmico assumiu o controle. Não visualizei portas luminosas ou guias espirituais. Estava isolado na minha própria frequência de energia.
A imobilidade e o escuro formavam um ambiente hostil. Se a morte consiste nesse confinamento mental solitário, a promessa de descanso é uma falácia. Eu era uma mente em alerta, imersa no escuro, sem a capacidade de encerrar a própria consciência. O vazio consciente não relaxa. Ele consome a sanidade.
A retenção no escuro pareceu atravessar séculos. A aceitação desse nada iniciava a desintegração da minha estabilidade.
Então, ocorreu a fissura.
Um estrondo elétrico partiu o negrume. Um tranco magnético violento me puxou para baixo, operando como um mergulho forçado. O fóton de energia colidiu com o invólucro de carne. A reentrada recusou a passividade.
A dor invadiu o sistema nervoso central. Um choque brutal incendiou meu tórax, acompanhado do som seco de um desfibrilador operando. A escuridão estilhaçou. A luz artificial feriu a retina.
O teto branco materializou na minha visão. A audição captou o ruído de rodízios metálicos arranhando o piso. Escutei a voz do médico exigindo medicação injetável. O oxigênio entrou nos pulmões raspando as vias aéreas. A tosse espasmódica serviu como prova de que eu estava ancorado de volta. O ar frio do hospital encheu o peito.
O monitor cardíaco retomou a leitura de picos irregulares, mas presentes. O bipe cadenciado provou o êxito da máquina. bip...bip...bip
A experiência no vazio terminou mediante a violência de um resgate clínico.
Passado algum tempo, tudo pareceu um sonho. Hoje, penso que essa ocorrência assume um perfil de "curto-circuito neurológico", desprovido de qualquer romance.
Se a extinção biológica for a etapa final do processo, a exigência primária é que o pensamento cesse junto com os órgãos. Manter-se como fóton consciente, no escuro e sem contato, foge do conceito de paz de espírito. É ao contrário. é a luzinha + insanidade + eternidade = Ao Nada.