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Por quê fugimos da DOR?

Por quê fugimos da DOR?
A dor silencia

Se a dor faz parte da experiência humana, por que passamos tanto tempo tentando evitá-la?

Essa pergunta parece simples, mas talvez revele algo muito maior sobre a forma como aprendemos a viver.

Todos nós, em algum momento, fugimos da dor.

Fugimos por meio do excesso de trabalho, da distração, do controle, do consumo, da produtividade, do pensamento incessante ou, até mesmo, da necessidade de parecer fortes o tempo todo.

As estratégias mudam.

O mecanismo parece ser o mesmo.

A questão, então, deixa de ser como fugimos e passa a ser outra:

Por que aprendemos que sentir pode ser tão ameaçador?

Uma primeira hipótese é que ninguém nasce fugindo da dor.

Aprendemos.

Ao longo da vida, determinadas experiências nos ensinam que sentir pode significar perder algo importante: o amor, o pertencimento, a segurança, a dignidade ou até a própria sensação de existir.

Quando isso acontece, fugir deixa de ser uma escolha consciente.

Torna-se uma estratégia de sobrevivência.

Talvez seja por isso que muitas pessoas não consigam simplesmente "parar para sentir", como tantas abordagens de autoconhecimento sugerem. Para quem aprendeu que a dor representa perigo, permanecer nela pode ser vivido como uma ameaça real.

Ao longo dos meus atendimentos, uma observação começou a se repetir: a maioria das pessoas não tem dificuldade apenas em lidar com a dor; tem dificuldade em permanecer diante dela. Quando uma lembrança dolorosa se aproxima, é comum surgir o impulso de mudar de assunto, racionalizar, ocupar-se com outra coisa ou buscar um alívio imediato. Não se trata de falta de vontade ou de fraqueza. Muitas vezes, trata-se de uma estratégia construída ao longo da vida para continuar existindo diante de experiências que pareciam insuportáveis.

Mas também encontrei pessoas que fizeram um movimento diferente. Com medo, às vezes lentamente, elas decidiram voltar-se para a própria dor. Não para alimentá-la, mas para compreendê-la. Em vez de fugir, começaram a investigar.

E algo parecia acontecer nesse processo: aquilo que antes era apenas sofrimento começava, pouco a pouco, a ganhar sentido. Mais do que diminuir a dor, esse movimento parecia ampliar a consciência. A pessoa passava a enxergar aspectos de si que antes estavam ocultos, compreendendo seus medos, suas escolhas e seus padrões de uma forma mais profunda.

Mas existe outra hipótese que merece ser investigada.

E se a parte mais difícil da dor não fosse apenas a sua intensidade, mas a falta de sentido?

Jean-Yves Leloup propõe uma reflexão interessante ao afirmar que uma das dores mais difíceis de suportar é aquela cujo significado desconhecemos.

Essa ideia dialoga com Viktor Frankl, que observou, em sua experiência clínica e existencial, que o sofrimento muda de qualidade quando encontra um sentido. Isso não elimina a dor, mas transforma a maneira como nos relacionamos com ela.

Talvez seja justamente por isso que tantas tentativas de aliviar rapidamente o sofrimento produzam apenas um alívio passageiro.

Vivemos em uma cultura que oferece inúmeras formas de reduzir o desconforto, mas poucas oportunidades de compreendê-lo.

Quando estamos tristes, rapidamente buscamos uma distração.

Quando estamos ansiosos, tentamos produzir mais.

Quando sentimos um vazio, procuramos preenchê-lo.

Raramente alguém pergunta:

O que essa dor está tentando comunicar?

Essa pergunta não é um convite para permanecer sofrendo.

Também não significa romantizar a dor.

Significa reconhecer que existe uma diferença entre fugir da experiência e compreendê-la.

Quando evitamos repetidamente determinadas dores, também evitamos entrar em contato com partes de nós que ficaram associadas a essas experiências. Medos, raiva, vergonha, culpa, desejos e necessidades não reconhecidos permanecem fora da consciência. Na Psicologia Analítica, Carl Gustav Jung chamou a atenção para esses conteúdos que permanecem inconscientes e que continuam influenciando nossa maneira de viver. Muitos deles podem ser compreendidos como aspectos da sombra: partes da personalidade que foram rejeitadas, reprimidas ou, simplesmente, nunca puderam ser reconhecidas.

Sob essa perspectiva, ampliar a consciência não significa eliminar a sombra, mas desenvolver a capacidade de olhar para ela sem negar a sua existência. Cada conteúdo que se torna consciente amplia um pouco mais a nossa percepção sobre quem somos. Não nos tornamos perfeitos; tornamo-nos mais inteiros.

Talvez seja nesse ponto que a pergunta inicial ganhe um novo significado.

Não fugimos apenas porque dói.

Fugimos porque, em algum momento, fugir nos protegeu.

O paradoxo é que aquilo que um dia nos manteve vivos pode, anos depois, limitar nossa capacidade de viver plenamente.

Talvez amadurecer emocionalmente não seja eliminar a dor.

Talvez seja aprender a reconhecer quando uma estratégia de sobrevivência cumpriu sua função e já pode ser transformada.

Ainda não tenho uma resposta definitiva para essa investigação.

Mas uma pergunta continua me acompanhando:

O que deixamos de descobrir sobre nós mesmos quando passamos a vida inteira tentando não sentir a dor?