O que afinal , fazemos aqui, neste planeta ?
O anfiteatro do prédio antigo cheirava a madeira encerada e papel guardado. A luz do fim de tarde entrava inclinada pelas altas janelas de caixilho de ferro, cortando a poeira fina que flutuava no ar. A aula aberta sobre "Antropologia Bíblica e Modernidade" já passava de uma hora e meia quando o murmúrio habitual das anotações cessou.
No fundo da sala, um rapaz de camisa social clara e caderno fechado sobre o colo levantou o braço com firmeza. Não esperou o gesto formal de concessão.
— Professor Marcos — a voz ecoou límpida, carregada daquela urgência típica dos alunos dos últimos períodos. — O senhor passou noventa minutos analisando as correntes da teologia contemporânea. Isso é ótimo para a aguçar nossa curiosidade sobre o sentido da vida. O senhor já viveu mais de sessenta anos, tem décadas de estrada e o que o senhor realmente pensa sobre o nosso papel?
O que podemos fazer aqui, nesta oportunidade de vida, no espaço entre o nascimento e a morte? Qual a verdadeira finalidade? O que estamos fazendo aqui, professor?
O silêncio desceu de imediato sobre os quase oitenta alunos. Alguns viraram o tronco para trás, surpresos com o tom quase insolente do desafio; outros olharam para a frente, esperando uma reprimenda formal ou uma saída acadêmica pela tangente.
O professor Marcos soltou o toco de giz branco na canaleta da lousa. Tirou os óculos de aro fino, limpou a lente com a ponta da camisa de linho e deu dois passos lentos até a beirada do estrado de madeira. Não havia rigidez na sua postura; parecia apenas o alívio de quem finalmente é convidado a largar o roteiro decorado.
— Sente-se, Daniel — disse Marcos, com um meio sorriso que desarmou a tensão na hora. Apoiou as mãos no espaldar de uma cadeira vazia da primeira fila. — Vou aceitar o seu convite. Mas com um trato: nada do que vou dizer aqui tem o objetivo de doutrinar você ou os seus colegas, muito menos advogar por uma teoria nova para vocês colocarem em prova. Não sou dono de verdade alguma e dispenso palanques. O que posso lhe oferecer é apenas o relato desarmado de como vejo a engrenagem rodar, depois de algumas décadas lidando com a teoria nos livros e a vida concreta nas ruas.
Ele fez uma pausa breve, olhou para o fundo da sala e continuou, num tom de conversa direta:
— A nossa tradição ocidental acostumou vocês a buscarem um bilhete debaixo do travesseiro. A ideia de que existe uma missão mística, um roteiro cósmico esperando para ser decifrado aos vinte, aos trinta ou aos cinquenta anos. Pois bem: eu nunca encontrei esse bilhete. E, pessoalmente, acredito que ele nunca existiu.
Murmúrios baixos correram pelas fileiras. Marcos ergueu a mão espalmada, sem pressa.
— Se olharmos para a raiz da sabedoria judaica mais antiga, encontramos algo muito mais maduro: o Criador não construiu um hotel cinco estrelas para nos hospedar com pensão completa, nem pendurou na parede um quadro acabado para ser apenas admirado. Ele organizou as leis deste universo, fez o mundo deliberadamente incompleto e nos plantou aqui como parceiros da criação.
Ele deu alguns passos laterais pelo estrado, os sapatos soando secos no assoalho.
— A criação é um processo vivo, contínuo e evolutivo. Ela se desdobra e se aprimora no tempo. Ao nos colocar neste chão, a Força criadora deu o seu passo e deu um passo atrás. Esse recuo não foi abandono, Daniel. Foi o ato mais sublime de confiança que se pode conceber: a entrega limpa do livre-arbítrio. Fomos dotados do discernimento real para escolher a passada, o sim, o não, a construção ou o desleixo. Deus não fica nos bastidores puxando cordinhas invisíveis, não interfere no café que você toma de manhã e não escolhe qual ônibus você deve pegar na saída desta aula. O livre-arbítrio absoluto é o maior presente e a maior responsabilidade da nossa existência: fomos plantados aqui para fazer o melhor possível com os nossos dias, sabendo que cada escolha carrega seu peso e seu desfecho natural.
O aluno no fundo continuava atento, sem desviar os olhos. Marcos respirou fundo e retomou o fio da meada:
— Só que escolher cansa. Dá trabalho responder pelos próprios atos. Foi aí que nasceu a grande armadilha humana: o vício da tutela. Muito cedo na história, as estruturas organizadas e os centros de poder perceberam que era infinitamente mais fácil manter o rebanho quieto se ensinassem o medo da própria autonomia. Criaram intermediários para tudo. Disseram o que o indivíduo devia temer, como devia orar e inventaram a fantasia de um céu burocrático, onde um vigia severo anota tropeços para punir ou premiar no final dos tempos.
O professor apoiou os braços na mesa lateral e olhou fixamente para a turma:
— O homem abraçou essa tutela por pura conveniência. Afinal, se o meu destino já está traçado, a culpa pelos meus fracassos nunca é minha. Mas o preço disso é a infantilização permanente da alma. O sujeito chega aos quarenta ou aos sessenta anos sem ouvir trombeta alguma e passa a se sentir uma fraude, achando que desperdiçou a vida porque não encontrou o tal "propósito sagrado". Essa culpa nada mais é do que o cansaço de quem passou décadas esperando autorização divina para viver.
— Mas se não há esse roteiro no céu — interveio Daniel, agora com a voz mais compassada —, como a gente se orienta no meio do caminho sem cair no absurdo do vazio?
— Entendendo como a realidade responde ao nosso passo — respondeu Marcos com firmeza. — O universo não se ocupa em fazer julgamentos morais da nossa intenção, mas responde com exatidão mecânica à nossa postura prática. É o que muita gente chama por aí, com pose esotérica, de sincronicidade. Não tem nada de místico nisso.
Marcos sorriu, apontando para a janela:
— Pensem no dia a dia da cidade. Vocês passam semanas concentrados em resolver um problema sério de trabalho ou de família e, sem esperar, encontram um conhecido na fila da padaria que puxa exatamente aquele assunto e oferece uma saída. Ou decidem mudar de atitude com sinceridade e parece que os livros certos caem da estante e as conversas certas se destravam. Não foi milagre e nem sorte cega. A sincronicidade é apenas o encontro da sua atenção desperta com a engrenagem do mundo. Enquanto você anda distraído, remoendo culpas do passado e esperando sinais celestiais, as oportunidades cruzam a calçada e você não enxerga. Quando você assume a autoria da sua rota e caminha com intenção clara, o seu próprio radar começa a pinçar da realidade o que serve ao seu trabalho. O mundo não mudou; foi você que parou de dormir no ponto.
Um silêncio meditativo tomou conta do anfiteatro. Marcos olhou o relógio de pulso antigo, viu que a luz lá fora começava a cair e aproximou-se novamente da beira do estrado, encarando Daniel com serenidade.
— E agora, Daniel, para responder de frente ao coração da sua pergunta: o que podemos fazer neste intervalo entre o nascimento e a morte? Qual a verdadeira finalidade de estarmos aqui? A resposta é desarmadoramente simples, sem pompa teológica: a finalidade deste intervalo não é decifrar enigmas no céu, mas assumir o encargo de sermos adultos conscientes no chão da terra. A oportunidade desta existência é transformar o tempo que nos foi concedido em algo útil, belo e digno.
Marcos fez uma pausa e começou a recolher seus papéis para a pasta de couro:
— Na prática, isso se resume a atitudes muito concretas para preencher essa lacuna entre o primeiro e o último fôlego. Primeiro, enterre a ilusão de que alguém virá resolver as suas pendências; assuma a inteira autoria das suas escolhas diárias. Segundo, passe a tesoura nos excessos: pare de queimar energia com polêmicas vazias, recolha a vaidade de querer ter razão em tudo e organize a sua rotina com método e disciplina, para que a sua força não escorra pelo ralo. E, por fim, use o silêncio e a lucidez que você resgatou para fazer algo real por quem caminha ao seu lado, seja no trabalho que você entrega, seja no afeto a quem divide o teto com você.
Ele fechou a fivela da pasta com um estalo seco, ajeitou a alça no ombro e concluiu:
— O que estamos fazendo aqui, Daniel, é empurrar a criação um centímetro adiante através da nossa própria maturidade. Deus nos deu o fôlego, o mundo incompleto e o livre-arbítrio; o que você faz entre o berço e a cova é a sua assinatura pessoal na obra.
O professor desceu o estrado com passos calmos e caminhou em direção à porta aberta, enquanto a turma, tocada pela crueza das palavras, começava a guardar os cadernos sem pressa.