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Baixa a guarda, Moyse

O nome disso aqui é carência de silêncio. É cansaço antigo, entranhado na carne e no osso, pedindo um canto escuro e um pouco de paz. Você está querendo colo, Moyse.
Baixa a guarda, Moyse
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Baixa a guarda, Moyse
Para de olhar para o teto com essa cara de quem precisa redigir um monte de e-mails. Eu conheço esses vincos na sua testa faz quase setenta anos, rapaz. Você tranca o queixo, faz um bico com os lábios, estufa o peito e acha que se relaxar um centímetro a estrutura inteira vem abaixo. Não vem. O mundo não é feito de vidro fino, e você não é a coluna que segura o teto da casa.
Olha para você estirado aí nessa cama de São Paulo, fingindo que isso é uma pausa estratégica de cinco minutos. Não me venha com termos técnicos, com gestão de energia ou com qualquer uma dessas teorias que você costuma explicar com clareza para os outros. O nome disso aqui é carência de silêncio. É cansaço antigo, entranhado na carne e no osso, pedindo um canto escuro e um pouco de paz. Você está querendo colo, Moyse. Admite de uma vez. Não tem ninguém olhando, não tem ninguém na sala te esperando. Tem apenas nós dois aqui dentro.
E quer saber? Eu sei exatamente por que você está assim. Você não aguenta mais São Paulo. Essa cidade cobra um pedágio invisível a cada esquina. É o asfalto quente, o zumbido contínuo das avenidas entrando pela janela, o ar pesado de pressa alheia que vai grudando na pele sem você perceber. Você está aqui há dias demais. Já deu o tempo dessa semana. O que tinha para despachar, você despachou. O que tinha para olhar nos olhos e resolver, está resolvido. Insistir em ficar mais uma hora aqui é pura teimosia de quem acha que pode ser necessária sua presença.
Então vamos colocar ordem nisso agora, sem confusão: primeiro você sai desse transe, pega a estrada e sobe. Depois, só quando pisar lá no alto, é que você vai se dar ao luxo de deitar e desligar a máquina. Não inventa de tentar descansar no meio desse barulho de asfalto, porque a cabeça não desliga aqui. O descanso tem endereço certo.
Larga essa armadura pesada. Junta as suas coisas na mochila, sem pressa, mas sem enrolação. Põe esse telefone no silencioso e enfia no console do carro. Nada de ficar checando mensagem em semáforo. liga o carro, acelera e sai dessa cidade. Deixa a Marginal para trás, atravessa a Dutra e começa a subir a serra em direção à Bocaina. Você sabe de cor o ponto exato da estrada onde o ar muda de temperatura: a pressão no ouvido cede, o calor abafado do cimento fica para trás e entra pela janela aquele frio limpo, com cheiro de terra molhada e mato fechado. É ali que a cabeça começa a assentar.
Quando você finalmente cruzar a porteira e encostar o carro diante da casa de pedra, a viagem de verdade termina. Desliga o motor. Escuta o estalo do escapamento esfriando no silêncio absoluto da montanha. Olha em volta: as araucárias antigas, a densidade da mata verde e a solidez da pedra te esperando. A pedra não tem pressa, Moyse; ela fica onde está há séculos, sem pedir favor a ninguém.
Antes de qualquer coisa, vai matar a saudade do seu chão. Desce a pé até o pomar. Caminha devagar entre as árvores, pisando na terra fofa, sentindo o vento gelado cortar o rosto. Deixa o ar da altitude entrar fundo no peito, limpando essa fuligem de cidade grande. Para um minuto, fecha os olhos e escuta: escuta o som contínuo e caudaloso da cachoeira batendo nas pedras. Essa água não corre para cumprir meta; corre porque é a natureza dela correr. Ela te lembra, sem dizer uma palavra, que o mundo tem um ritmo próprio que não depende do seu esforço para continuar girando.
Depois de alegrar seus os olhos na mata, sobe de volta para o chalé. O gato vai aparecer na porta com aquele passo manso, fazer um oito macio nas suas canelas, ronronando sem pressa, e depois nem vai dar bola para você. Agradece a companhia silenciosa dele, que sabe habitar o frio sem fazer perguntas nem exigir explicações.
Aí sim, Moyse. Só agora começa o seu recolhimento. Agora você está em casa.
Vai direto para o banheiro. Abre o chuveiro na água bem quente, até o vapor subir grosso e embaçar o vidro da janela. Entra debaixo desse jato sem pressa de sair. Deixa a água pelando cair direto na nuca, lavando essa nuca dura de teimoso, soltando cada vértebra que você travou durante os dias de reunião em São Paulo. Ensaboa o corpo com calma, sentindo a quentura da água expulsar a tensão acumulada na carne. Olha o vapor encher o cômodo e apagar o resto do mundo. Ali dentro, com a água caindo no chão de pedra, você não é diretor, não é nada além de um homem recolhendo as próprias pontas.
Sai do banho sem pressa. Enxuga bem o cabelo, enfia uma calça de flanela velha, a camiseta mais surrada do armário e uma meia grossa de lã para proteger os pés do piso frio.
Senta na borda da cama. Não deita ainda. Apoia as duas mãos nas coxas, alinha a coluna e faz o que precisa ser feito: respira. Você passou a semana inteira respirando curto, com o ar preso na garganta. Puxa o ar pelo nariz, contando quatro segundos devagar. Enche o peito até a barriga estufar. Segura o ar nos pulmões por outros quatro tempos, sentindo as costelas abertas. Agora solta pela boca bem devagarzinho, num sopro fino e longo, contando até seis. Sente a diferença imediata? O coração desacelera o galope, o maxilar destrava e aquela sensação de perigo imaginário vai embora. Repete esse ciclo quatro vezes. É mecânica pura, do jeito que você gosta.
Agora sim. Puxa a manta pesada, ajeita o travesseiro debaixo da cabeça e estica as pernas. O gato vai se enrolar num canto do cobertor, o frio da serra vai bater de leve na vidraça da janela e o som da cachoeira ao longe vai servir de fundo.
Puxa o cobertor até o queixo e deixa o corpo afundar no colchão. Vinte minutos, meia hora de sono solto, sem relógio e sem culpa. Aquele cochilo gostoso em que a mente para de vigiar a vida e simplesmente descansa.
Você tem quase setenta anos de estrada, Moyse. Já segurou muita tempestade nas costas, mas agora o barco está recolhido na margem. A montanha te acolhe, a pedra te sustenta e o silêncio é todo seu.
Fecha os olhos, solta o peso do corpo e dorme.