Dendê e vatapá em verso e prosa
Uma crônica longe de ser verso em prosa, mas a temática é um convite a sentir o cheiro do mar. Se desconectar de tudo e ir espiar em Itapuã, um melaço de amor baiano. Só para desconectare...
O vento de Itapuã vinha morno, desatando sem pressa as amarras que a cidade teimava em apertar no peito de Bento. Era um sábado de sol poente no verão de 1974. Naquele tempo, Salvador ainda guardava Itapuã como um segredo distante, quase mítico: para se alcançar aquele pedaço de costa, a jardineira sacolejava por mais de uma hora pela estrada estreita de barro, levantando poeira avermelhada entre dunas alvas, lagoas mansas e manchas virgens de restinga. A praia era um retiro de areia fofa e coqueirais debruçados sobre a água verde-garrafa, onde canoeiros e pescadores de pele curtida puxavam redes de arrasto sob o olhar preguiçoso dos vira-latas.
Perto das amendoeiras que faziam sombra na entrada do areal, o tabuleiro de dona Cici perfumava a brisa inteira. O azeite de dendê borbulhava no tacho de ferro fumegante, dourando bolinhos de acarajé estaladiços, enquanto as panelas de barro fumegavam um vatapá denso e amarelo-ouro, enfeitado com camarão seco e castanha moída. O aroma forte de coentro, pimenta e gengibre subia pelo ar e se misturava ao cheiro limpo do salitre marinho, formando o perfume definitivo de uma tarde baiana.
Ali, o tempo esquecia de correr. Mas o mundo lá fora não dava trégua. Os anos 70 impunham um silêncio vigiado, pesado, e a cabeça de Bento vinha povoada de cautelas da faculdade e de um incômodo diário muito mais doméstico: a chatice intransigente do pai de Teresa. Seu Agenor, negociante de secos e molhados na Baixa dos Sapateiros, era homem de colarinho engomado, dente de ouro e preconceito afiado. Não suportava ver a filha conversando com rapaz que não ostentasse anel de formatura nem tivesse fazenda no Recôncavo. Implicava com os sapatos de corda de Bento, com o cabelo comprido nos ombros e com a pasta de couro surrada cheia de folhas de poesia. Vigiava o relógio de parede a cada dez minutos, ameaçava trancar Teresa no quarto de costura e passava o almoço de domingo resmungando que “moça direita não se mistura com pé-rapado sem eira nem beira”.
Bento desceu da condução trazendo esse peso nos ombros. Bastou, contudo, afundar os pés descalços na areia e passar pelo tabuleiro de acarajé para todo o fel da semana escorrer terra adentro.
Teresa já estava na pedra grande, perto do farol listrado. Era uma mulher de pele moreno-jambo reluzente, feita de puro sol da Bahia, com os cabelos negros ondulando soltos no vento do mar e um vestido de chita amarela que desenhava o colo macio. No pescoço, descansava uma guia miúda de continhas azul-claras e cristalinas, brilhando contra a pele morena. Segurava um prato de folha de bananeira com dois acarajés recém-fritos, transbordando vatapá fumegante e vinagrete. Quando os olhos dela encontraram os dele, o mundo pareceu parar para respirar.
Não havia contenção naquele reencontro; havia uma paixão desmedida, acesa em tom maior, daquelas que transbordam pelos poros e não deixam margem para dúvida ou recuo.
— Deixe de lamento nos passos, meu homem! — chamou ela, com uma risada gostosa que cortou o murmúrio das marolas. Puxou Bento pelo braço com uma força dengosa, jogando o corpo todo contra o dele. — Sente aqui logo e venha me beijar, que eu passei a semana inteira doente de tanta saudade.
Bento largou a pasta no granito e abraçou a cintura de Teresa com um desespero límpido, colando a boca quente na curva do pescoço dela. O cheiro de alfazema, dendê e sal marinho que saía daquela pele expulsou instantaneamente qualquer lembrança amarga.
— Seu Agenor quase me botou os cachorros na quarta-feira, Teresa — Bento murmurou contra os lábios dela, metade rindo, metade afobado. — Disse na janela que rapaz sem carteira assinada não põe os pés no alpendre dele.
Teresa deu uma gargalhada solta, tocou a guia azul no peito e apontou para a imensidão da água:
— Deixe meu pai chiar até perder o fôlego! Painho é um chato de galocha, homem que só pensa em saco de farinha e balança de armazém. O que é que ele entende do lume que queima na gente? Ele pode resmungar, trancar a porta da frente e mandar rezar novena; se for preciso, eu pulo a janela do quintal de madrugada. Ele acha que manda em mim, mas se esquece de quem é dona desta cabeça. Minha Mãe Iemanjá é quem fecha meu corpo e abre a minha estrada. Botei flores brancas pra Ela ontem de noite, Bento, e pedi guarda pro nosso querer. O manto d'Ela é maior do que qualquer zanga de painho. O que a Rainha do Mar abençoa na beira da praia, fúria de homem nenhum desmancha na terra!
Ela estendeu a folha de bananeira com o quitute para ele morder, rindo com os olhos apertados de orgulho:
— Coma esse de dona Cici pra forrar o estômago, vá. É bom, mas escute o que estou lhe dizendo: o meu vatapá dá de dez a zero nesse aí. Quando a gente juntar os trapos na nossa casinha, eu vou socar o camarão no pilão do jeito que minha avó ensinou, com leite de coco tirado na hora e azeite doce. Você nunca mais vai querer pisar na rua nem pra comprar fósforo!
Bento riu com gosto, puxando o rosto dela para mais perto e beijando-lhe a testa, as bochechas coradas pelo mormaço e a boca salgada com a fome de quem reencontra a própria vida. A firmeza apaixonada de Teresa e a bênção daquelas águas ecoavam no peito dele com a força de um acorde aberto.
Naquele instante, flutuando de um botequim de tábuas caiadas onde três pescadores jogavam dominó sob a sombra de um toldo de palha, o chiado de um rádio de pilhas espalhou pelo ar a melodia imortal de "Tarde em Itapoã", tecida pelo violão dengoso de Toquinho, pela poesia de Vinicius e pelas harmonias elegantes e luminosas do piano de Tom Jobim:
"Um velho calção de banho
O dia pra vadiar
Um mar que não tem tamanho
E um arco-íris no ar...
Depois sentir o arrepio
Do vento que a noite traz
E o coração desanuviar...
É bom passar uma tarde em Itapoã
Ao sol que arde em Itapoã..."
A canção derramava-se sobre o areal como se tivesse sido escrita para aquela pedra exata. Bento segurou as mãos de Teresa entre as suas, beijando seus dedos morenos e finos com devoção profunda. A animosidade estéril do pai dela e a poeira sufocante daqueles tempos viravam cinza miúda diante da imensidão dourada do mar e do axé sereno que os cobria.
— A gente é dono do mundo, Teresa — disse Bento, com a certeza lavada pela maré.
— Sempre fomos, meu dengo — respondeu ela, descansando a cabeça no peito dele enquanto a primeira estrela acendia no céu violeta. A luz nascida daquele amor puro e protegido pelas ondas inundava a tarde inteira, deixando qualquer ódio tropeçar, atônito, na sua própria escuridão.