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Não gosto de quem eu sou. E ?

Não gosto de quem eu sou

Entender que Não gostar de si mesmo, é parte da existência. Mas não permanente: não se trata de falta de amor-próprio (que envolve negligência com cuidados básicos ou submissão a abusos), mas sim de uma rejeição da própria identidade. A pessoa cuida de si, cumpre seus deveres, mas intimamente detesta quem ela é — sua personalidade, suas limitações e sua história. É uma dor profunda que, no início, manifesta-se como um sofrimento cego e um apego inconsciente ao próprio mal-estar.

1. O Diagnóstico: O Sofrimento e a Busca por Alívio

O sintoma mais claro da rejeição a si mesmo é o cultivo de um personagem e a fuga da solidão. Como bem aponta Leandro Karnal, quem se detesta foge desesperadamente do silêncio porque ele funciona como um espelho sem filtros. Sem o barulho do mundo, a pessoa é obrigada a encarar o que não admira em si mesma.

Nessa fase inicial, a dor chama por um curador interno que o indivíduo ainda não sabe nomear. Ele apenas tenta sair do sofrimento a qualquer custo, buscando alívio em psicólogos, amigos, consolo, religião ou previsões. É o início da jornada. Se a pessoa estiver atenta, a rendição a essa busca atrai sincronicidades: o terapeuta certo, o livro exato, a conversa que faltava. É quando o "dar-se conta" começa, e ela percebe que também contribuiu para o próprio abismo.

2. Passo a Passo para uma Autoavaliação Pragmática

Para sair da busca cega e iniciar a cura, a pessoa precisa de uma auditoria analítica e realista, dividida em duas etapas:

  • O Rastreamento do "Tribunal Externo": O filósofo Luiz Felipe Pondé nos lembra que a autoestima não é um balão autônomo; ela é alimentada por métricas reais de inserção no mundo (afeto, dinheiro, validação). A autoavaliação deve responder: A pessoa se detesta por ter falhado com seus próprios valores ou porque está viciada em tentar seduzir o olhar de uma sociedade hipócrita e fracassou?
  • O Mapeamento das Projeções (O Olhar Junguiano): Na psicologia de Carl Jung, aquilo que mais rejeitamos em nós é empurrado para o inconsciente e forma a nossa Sombra. Identificamos a Sombra através das nossas reações desproporcionais aos outros. Peça para a pessoa listar o que ela mais detesta nos outros; ali estará o que ela rejeita em si mesma.

3. O Plano Mental: Fortalecimento e Integração da Sombra

A autoestima real não nasce de discursos motivacionais ou de "se amar incondicionalmente" — uma ilusão que Pondé define como inútil. Ela nasce quando o ego se fortalece o suficiente para largar as bengalas emocionais e iniciar um processo silencioso de integração.

  • Aceitação da Insuficiência: Como diz Karnal, "perfeito significa feito até o fim, e nós não estamos prontos". O plano mental começa ao aceitar a imperfeição crônica, aliviando o peso de ter que ser impecável.
  • A Pausa no "Conserto": Chega um momento no processo em que você cansa de tentar se consertar. Em vez de querer se livrar das partes feias, o plano exige dizer "sim" a elas. Aquela sua versão do passado, que tomou decisões ruins ou foi fraca, foi a mesma que garantiu a sua sobrevivência e tirou você de relacionamentos abusivos.

O ápice desse plano mental se manifesta no corpo e na prática. É quando, ao fazer um exercício pesado na academia e pensar em desistir, você se lembra de onde veio. Você olha para trás e agradece a todas as suas versões anteriores. Mente e corpo se aplaudem, o coração infla e você saboreia a paz de estar cuidando de si. Esse sabor não dura para sempre; ele fica o tempo necessário para que você recupere as forças e comece o próximo processo de cura daquilo que, inevitavelmente, ainda está inconsciente.