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O DNA que faz o bem é o mesmo que faz o mal?

O DNA que faz o bem é o mesmo que faz o mal?

A topografia da nossa essência observada da janela

Se você se aproximar da janela comigo agora e olhar para a rua logo abaixo, não verá demônios com caudas ou anomalias biológicas caminhando entre os pedestres. O que vemos é a normalidade pacata de um fim de tarde. Mas, se mudarmos a frequência da nossa observação, o cenário revela uma arquitetura invisível e assustadora. O bem e o mal não estão disputando o mundo lá fora; eles estão acontecendo agora, simultaneamente, na calçada da frente, provando que a resposta para a pergunta acima é um sim categórico. A nossa herança mais profunda carrega a mesma fita para a luz e para a sombra.

Olhe um pouco mais à direita. Aquele homem caminhando apressado, de olhos fixos na tela do celular, acaba de curtir e compartilhar um linchamento virtual que destruirá a reputação de um colega. Ele não é um sádico; é um homem educado, veste roupas finas. Mas, ao reduzir o outro a um avatar flutuante em uma tela, ele opera o mal sem sujar as mãos. É o horror moderno disfarçado de processo diário, onde a velocidade nos proíbe de parar e olhar o outro nos olhos. O mesmo cérebro capaz de criar conexões globais usa a mesma ferramenta para isolar e destruir.

Ao mesmo tempo, exatamente no banco da praça logo em frente, uma jovem médica toma o seu terceiro café puro do dia. Ela está trêmula, exausta, operando no limite do esgotamento para atingir metas absurdas de produtividade. O mal aqui não é o grito, é o que essa exaustão faz com ela: sob o peso do cansaço extremo, sua capacidade de empatia simplesmente secou. Quando o próximo paciente entrar na sala chorando de dor, ela não verá um ser humano; verá apenas um protocolo burocrático a ser despachado o mais rápido possível para que ela possa dormir. A violência que ela exerce contra o próprio corpo anestesiou sua alma, transformando a busca pela eficiência na mãe da crueldade silenciosa.

Mas há um contraponto exato nessa mesma calçada. Um pouco mais adiante, na entrada do edifício principal, veja aquele homem que desembarca de seu carro importado. Ele sorri e assina um cheque generoso para a ala de cuidados paliativos do hospital local — um ato legítimo de bem, que vai aliviar a dor de dezenas de pessoas. O paradoxo é que a fortuna que financia essa caridade foi construída destruindo a saúde mental e física de centenas de famílias de seus próprios funcionários. O mal e o bem coabitam sem conflito na mesma rotina: usamos pequenas pílulas de bondade calculada para anestesiar a culpa das nossas grandes atrocidades diárias. O mesmo impulso que protege é o que explora.

E veja ali, quase invisível no recuo do portão. Um idoso vulnerável, trêmulo, está sentado no chão frio. As pessoas passam por ele como se passassem por um poste ou um hidrante. O olhar burocrático e indiferente dos pedestres — homens e mulheres que pagam seus impostos e amam seus filhos — retirou dele qualquer dignidade, reduzindo-o a uma vida nua, um corpo descartável que perdeu o direito ao acolhimento. O horror se naturalizou sob a justificativa de que o tempo é escasso e os recursos são limitados. A mesma inteligência que organiza as cidades é a que escolhe quem deixar para trás.

O mesmo tecido humano que arquitetou a civilização caminha por essa calçada carregando os dois genes na mesma fita de DNA. O bem e o mal não são traços de personalidade fixos; são estados de prontidão existencial. A resposta que buscávamos na janela está dada: a nossa biologia não se divide entre monstros e santos. Nós somos o remédio e o veneno.

E é aqui, na segurança dessa observação, que a nossa complacência é colocada à prova. Diante de tudo o que os nossos olhos acabaram de testemunhar nesta única imagem cotidiana, eu me viro para você e pergunto:

Se o limite que separa a nossa humanidade da barbárie é apenas o cansaço do dia, a tela de um celular ou a conveniência de um privilégio... quem garante que, ao fechar esta janela e voltar para a sua rotina, o próximo a ativar o lado mais sombrio desse DNA comum não será você?

Fontes de pesquisa e inspiração filosófica para este texto: Zygmunt Bauman (a fluidez do mal), Byung-Chul Han (a sociedade do cansaço e violência neuronal), Slavoj Žižek (violência sistêmica e caridade utilitária) e Giorgio Agamben (o conceito de vida nua).