Foi preciso coragem para assumir a minha ignorância.
Eu decidi abafar o barulho do mundo nos meus ouvidos aos 68 anos. Neste momento, eu invisto boa parte de meu tempo no Portal Desconectare — uma maneira que encontrei de iniciar um período de estudos sobre a natureza humana e escrever sobre isso ( porque eu curto muito escrever). É uma tentativa para, finalmente, me ouvir de verdade —, condição básica para me conhecer com profundidade através das teorias filosóficas, psicológicas, religiosas e esotéricas.
Mas, ao pesquisar mentes brilhantes, fui me ofuscando na insignificância do meu próprio EU e iniciei meu processo de desconstrução.
A primeira estrutura que destrui foi a EMPATIA. Eu jurava que a empatia era a salvação para uma sociedade melhor. Acreditava que ela ia consertar tudo e todos. E eu sempre procurei ser empático. Eu sempre vesti a capa da pessoa que entende, que acolhe, que desce até o fundo do poço para curar mais ou menos, a dor do outro.
Mas sabe o que eu encontrei no fundo desse poço?
Exaustão da Hipocrisia. E o pior: um verdadeiro teatro emocional.
Eu dei de cara com a mais profunda incoerência: a de tentar ser empático em situações onde, para ser brutalmente honesto, eu simplesmente não conseguia ser. É por isso que este texto rasgou a fantasia de reflexão acadêmica.
Ele é o meu manifesto.
Um manifesto pela liberdade de não sentir a dor que não é nossa. E pela urgência de sermos verdadeiros antes de tentarmos bancar os "salvadores" de qualquer situação.
A Ilusão Romântica e a Vontade de Solucionar
No começo, eu comprei a narrativa que nos vendem por aí. A pesquisadora Brené Brown sussurrava a cartilha perfeita na minha cabeça:
"A empatia nutre a conexão (...) é uma escolha vulnerável, porque, para me conectar com você, eu preciso me conectar com algo em mim que conhece esse mesmo sentimento."
Logo em seguida, o filósofo Roman Krznaric me dava uma missão de vida quase heroica:
"A empatia (...) é uma força radical para a transformação social."
Na teoria, isso soa lindo. Na prática nua e crua da vida? Virou uma armadilha.
E quando eu não tenho absolutamente nada dentro de mim que conheça esse sentimento? E quando a dor do outro é tão distante, tão alienígena à minha realidade, que tentar vesti-la soa como uma fantasia barata?
Quantas vezes eu forcei um aceno de cabeça, uma cara de luto e mandei um "eu entendo o que você está passando" só porque a minha vontade incontrolável de solucionar a situação — e acabar logo com o desconforto daquele momento — era maior do que a minha honestidade?
Eu estava sacrificando a minha própria verdade para manter a pose. Estava sendo falso em nome de uma suposta conexão.
A Empatia Cai do Pedestal
Foi no silêncio lúcido do meu Desconectare que eu deixei a dissonância bater. E o psicólogo Paul Bloom me deu o soco no estômago que eu precisava. Ele rasgou a minha ilusão e jogou a minha incoerência na mesa:
"A empatia funciona como um holofote (...) reflete nossos preconceitos. Ela faz com que nos importemos muito mais com quem é parecido conosco, e nos torna cegos ao sofrimento das multidões..."
Ele me obrigou a confessar o inconfessável: a minha empatia tem limites. Ela é tribal. Ela acende rápido para quem é da minha bolha, mas simplesmente "desliga" diante do que foge da minha vivência.
E, para implodir de vez o pedestal em que eu tinha colocado a empatia, a filósofa Martha Nussbaum cravou a faca final na ideia de que "empatia é sinônimo de bondade":
"A empatia é, por si só, moralmente neutra. De fato, um torturador ou um sádico precisa ter um alto nível de empatia para entrar na mente de sua vítima e saber exatamente o que lhe causará o maior sofrimento."
Bingo. A empatia não é divina. É só um mecanismo neutro. E, quando forçada às cegas para tentar resolver a vida do outro, vira uma manipulação que nos esgota.
O Olhar de Cima: A Minha Caixa de Ferramentas
Diante desse choque de mentes brilhantes, parecia que um lado tinha que anular o outro. Mas quando eu assumi o olhar de cima — o verdadeiro propósito de me desconectar para enxergar o labirinto do alto —, eu entendi o jogo: a evolução das ideias não destrói. Ela soma.
A grande revolução no processo do meu Desconectare foi aceitar exatamente isto: a empatia perde o status de deusa e deixa de ser a minha única ferramenta. Ela passa a ser apenas UMA de várias chaves dentro da minha caixa.
A maturidade está em sacar a ferramenta que melhor se adapta ao momento:
- A hora de usar a Empatia: Quando um parceiro de jornada chora por uma dor que ecoa de verdade em mim, a vulnerabilidade (Brown) e a escuta (Krznaric) se encaixam com perfeição. É real. Eu saco a empatia da caixa, choro junto, conecto.
- A hora da Incoerência e da Verdade: Mas quando a situação exige uma resposta para algo que eu não compreendo, ou quando o meu próprio limite emocional apita (como alertou Bloom), eu deixo a empatia guardada.
Nessas horas de abismo, cobrar empatia de mim mesmo é uma violência. A gente precisa ter a coragem de assumir a incoerência de fingir empatia quando não a sentimos. A resposta mais curativa e ética (como defende Nussbaum) não é entregar um falso "eu sinto a sua dor".
A resposta verdadeira do meu manifesto é esta:
"Eu não faço a menor ideia do que você está passando. Eu não consigo sentir isso, não consigo ser empático agora, e não vou mentir fingindo que tenho a solução mágica para o seu problema. Mas eu te respeito profundamente, eu enxergo você, e estou aqui do seu lado, usando a minha razão e a minha ética para te apoiar."
Ser verdadeiro — por mais que a gente queira desesperadamente consertar a vida do outro — é mil vezes mais potente do que uma empatia performática.
(Desconectar e Encontrar-se) É parar de ser refém de um único jeito aprendido de agir no mundo. É ter a coragem de ser brutalmente autêntico, sabendo exatamente que ao buscar sua própria essência, fantasmas serão vistos e que precisarão ser exorcizados através da verdade do que se é. Moyse Aguiar
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