4 min de leitura

Eu Queria Ser o BATMAN !

o desejo de construir uma identidade definida no tempo. E não conseguir.
Eu Queria Ser o BATMAN !
audio-thumbnail
Eu queria ser o batman
0:00
/276.349375

Eu observo a mecânica do que desejo. O processo ocorre em três camadas práticas. A primeira é a posse da matéria, como a compra de uma casa ou a aquisição de um veículo. A segunda é a busca pelo imaterial, expressa na necessidade de segurança ou na procura por respeito social. A terceira camada, a mais profunda e estrutural, é a vontade de ser alguém. É o desejo de construir uma identidade definida no tempo. Eu quero ser o profissional de referência ou o pensador independente. Ter um bem físico ou experimentar uma sensação invisível são, no fundo, ferramentas para sustentar quem eu decidi me tornar.
O consumismo domina e funde essas três frentes. Eu não busco um objeto apenas pela sua função prática, mas o utilizo como alavanca para construir o meu personagem perante o grupo. Esse personagem, porém, não é autônomo. O desejo humano é imitativo. Eu imito o desejo do grupo de referência para medir o meu próprio valor. O filósofo Byung-Chul Han expõe a mutação atual desse sistema de validação. O mercado agora empacota emoções e vende identidades prontas. Ele transforma o desejo existencial de "ser alguém" em um produto de prateleira que precisa ser continuamente financiado.


Essa estrutura de construção de identidade exige controle. Eu traço planos lógicos de causa e efeito para me tornar a pessoa que planejei. O acaso, contudo, ignora o meu cronograma. Ele impõe um desvio que não aceita negociação. O imprevisto não frustra apenas o consumo da matéria ou do imaterial. Ele destrói o roteiro da própria identidade.

Uma mulher de vinte anos estuda para ser uma profissional autônoma, mas uma gravidez imprevista altera a rota. A interrupção forçada gera a primeira catarse. É o momento do choque violento entre o fato imposto e o personagem projetado. A versão de si mesma que ela arquitetou é esmagada pela urgência do presente. A energia de ação é sugada pela necessidade de adaptação imediata.

O futuro cancelado exige, então, o luto de uma identidade que não vai existir.
A vida imposta pelo imprevisto, no entanto, não é feita apenas de perdas. A nova responsabilidade cria outras fontes de preenchimento. A jovem mulher descobre uma satisfação real no exercício da maternidade. O ato de cuidar de um filho traz um prazer genuíno. A dedicação diária gera um significado sólido que a sustenta.

Mas a equação carrega uma fratura que não se fecha.

O amor pela vida presente não elimina a falta da vida não vivida. O desejo individual de ser aquela pessoa diferente, alinhada com as ambições do passado, jamais será realizado na sua forma pura.

O desejo original de ser alguém específico não morre com essa constatação. Ele entra em estado de dormência. Ele hiberna sob a camada espessa de obrigações diárias. A juventude e a primeira fase da maturidade são consumidas pela gestão da vida caseira. O tempo avança. A dependência dos filhos cai. O acaso cessa o seu efeito de contenção décadas depois. A casa esvazia e a urgência da sobrevivência diminui. É nesse exato ponto que ocorre a segunda catarse.
O silêncio devolve o espaço mental.

O desejo enterrado acorda.

A lembrança da identidade que eu poderia ter assumido volta de forma implacável. A reação a essa segunda catarse depende do momento biológico em que ela ocorre. Uma pessoa que vivencia esse esvaziamento aos quarenta e cinco anos possui uma margem de manobra. Ela ainda tem energia física e tempo para tentar resgatar o plano original. Ela pode voltar à universidade ou iniciar a carreira adiada. Ela pode alcançar o sucesso que projetou no passado.

Contudo, essa retomada é a gestão do que é possível.

O resultado final carrega a marca do tempo deslocado. A mulher de quarenta e cinco anos realiza o feito, mas não recupera a juventude que idealizou para vivê-lo. Ela executa o plano sob uma nova condição. O triunfo é real, mas o cenário desenhado lá atrás foi irremediavelmente perdido.
Aos 68 anos, a minha leitura dessa segunda catarse opera em outra escala. O resgate literal da identidade passada não é mais uma opção. A fatura do tempo sacrificado é apresentada e a dor da frustração é latente. A tensão muscular é crônica. O autoconhecimento demonstra o seu limite prático. Ele nomeia a dor e localiza a renúncia, mas não atua como anestesia. Compreender o sacrifício não devolve o vigor gasto nele.
A constatação é dura: o indivíduo morre com as próprias frustrações.

A narrativa de que posso resolver todas as pendências dos meus sonhos e desejos e encontrar um saldo zerado antes do fim, é uma invenção tola e sem sentido.

A biologia e a cultura operam na lógica da falta. O fim para ambas as idades é o mesmo. Tanto a pessoa de quarenta e cinco anos quanto eu lidamos com a impossibilidade de apagar a cicatriz do desvio. A diferença é que eu decido parar de tentar reescrever o roteiro de quem eu deveria ter sido.

Ressignificar a vida não apaga as perdas.

A mudança ocorre pela queda na importância que eu atribuo a elas. A necessidade de provar valor desaparece. A busca por validação externa perde o fôlego. Eu direciono a minha rota de forma intencional para a linha do desconectar . Eu passo a desejar a ausência de demandas. O conceito de ócio ganha uma nova definição. Ele deixa de ser um intervalo para recuperar as forças para o trabalho seguinte. O ócio passa a ser o destino final da ação.
Os novos impulsos assumem uma forma isolada da utilidade. Eu caminho seis quilômetros por dia no terreno montanhoso da Serra da Bocaina. Eu inicio o aprendizado de filosofia para fazer textos que me auxiliem a entender a raça humana. O esforço físico a 1450 metros de altitude não gera lucro. Nem o estudo da filosofia. Essas ações servem unicamente para ocupar o momento com a minha presença consciente. Elas representam a retomada do meu território pessoal após décadas operando na lógica da utilidade. A utilidade agora é o prazer consciente de fazer o que motiva a felicidade de ser o que se pode ser.
A redução da ambição funciona como uma ferramenta de sobrevivência. Eu retiro o peso da expectativa sobre o futuro e concentro a atenção na execução imediata.

Os desejos interrompidos e as identidades canceladas tornam-se dados de arquivo.

A gestão da minha rotina se apoia na leitura fria do que o tempo levou e na execução prática do que ele me deixou. Eu não busco mais ser quem eu planejei ser. Eu assumo a autonomia para habitar o presente com o que me restou.

Eu queria ser o BATMAN ! ( Quem nunca? )