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E 18 meses depois de hoje !

— Pai, quando teve aquele segundo turno... você votou em quem? A pergunta pegou meu pai no contrapé. Ele ajeitou a camisa, engoliu em seco e tentou vestir a postura de um pensador acima da média: — Em ninguém. Eu apertei a tecla branca como protesto contra o sistema.
E 18 meses depois de hoje !

(Texto ficcional para pessoas que anulam o voto)

A televisão ligada na hora do almoço cuspia mais uma sequência de notícias sobre corte de verba nas universidades federais, avanço de grileiros em terras indígenas e um esquema descarado de propina em barras de ouro nos ministérios. Na bancada da sala, o jornal mostrava o gráfico da inflação comendo o prato de comida e a foto de hospitais sem remédio básico, enquanto milícias armadas ganhavam salvo-conduto e os filhos do presidente desfilavam impunes, debochando das instituições em transmissões ao vivo.
Meu pai largou a xícara na mesa com tanta força que o café espirrou na toalha. O rosto dele ardia de raiva:
— É um bando de bandidos! Transformaram o país num curral americano ! Desmontaram a Polícia Federal, destruíram o meio ambiente, deixaram o povo morrer na fila do SUS. É o fim da linha, não tem mais decência, não sobrou pedra sobre pedra nessa porra de país!
Era o repertório diário. Ele vociferava com as veias do pescoço saltadas, batendo no peito como se fosse o único cidadão indignado da república.
Fiquei apenas olhando, esperando o fôlego dele acabar. Ao meu lado, minha mãe servia o restante do feijão, o olhar cansado e fixo na parede. Quando o silêncio finalmente pesou na cozinha, perguntei sem erguer o tom:
— Pai, quando teve aquele segundo turno... você votou em quem?
A pergunta pegou meu pai no contrapé. Ele ajeitou a camisa, engoliu em seco e tentou vestir a postura de um pensador acima da média:
— Em ninguém. Eu apertei a tecla branca como protesto contra o sistema. Nenhum dos dois prestava, e eu me recusei a dar um mandato em branco para qualquer um deles. Voto é procuração; não passo para ninguém validar o que rejeito. Minhas mãos continuam limpas.
Não desviei o olhar nem por um segundo:
— Mas você se posicionou de verdade lá atrás? Do jeito que você faz agora, gritando, socando a mesa e achando essa barbárie intolerável? Reclamar agora é fácil, mas na hora da urna você achou que o fascismo ia recuar por causa do seu silêncio. Voto branco não deixa a cadeira vazia nem anula eleição; ele só é jogado no lixo e diminui o número de votos válidos que a extrema-direita precisava para se consolidar. Você não negou mandato a ninguém, pai. Só facilitou a vitória dos fanáticos.
Antes que ele emendasse uma desculpa, virei o rosto para o outro lado:
— E você, mãe? O que você fez?
Ela pousou a panela sobre a toalha, cruzou os braços e respondeu com firmeza, cravando os olhos no meu pai:
— Eu fui. Seu pai disse que não valia a pena sair de casa, guardou o carro na garagem e se recusou a me levar até a escola pra votar. Peguei o ônibus lotado debaixo de sol quente, enfrentei uma hora e meia de fila e digitei o meu voto. Não era o candidato dos meus sonhos, mas eu sabia muito bem o que precisava ser barrado. Sabia o tamanho da desgraça que vinha se aquela gente assumisse o controle de vez.
Olhei fixamente para ele e fechei a conta:
— A mãe entendeu que segundo turno não é casamento, é contenção de danos. Ela pegou condução para tentar barrar o desastre enquanto você ficou na poltrona achando que preservava a própria santidade. Quem cruza os braços diante do pior não tem moral para gritar com a TV depois.
Levantei, recolhi meu prato e fui para o quarto.
Da porta, ainda olhei para trás antes de fechar. Meu pai permaneceu imóvel, encolhido na cadeira, com os dedos congelados em volta do prato frio. Não havia mais a pose de homem indignado, nem argumentos sobre virtude cívica. Quando ele encarou minha mãe, encontrou nos olhos dela apenas a lembrança nítida daquele domingo: o carro trancado na garagem e a covardia disfarçada de protesto, enquanto ela enfrentava a poeira e o asfalto.
Um nó visível subiu pela garganta dele. A cada escândalo que a televisão despejava — o desmonte das leis, a apologia à tortura, a miséria batendo na porta —, a ficha pesava como chumbo. A pretensa pureza moral não passava de omissão barata. Ele descobriu da pior forma que a ética de verdade não mora na recusa confortável de quem foge do atrito para manter as mãos limpas, mas na coragem de quem encara a lama quando o dever chama. Democracia não espera por heróis nem tolera a covardia dos que lavam as mãos na hora do incêndio; ela exige a decência de quem assume a linha de frente, toma o seu lado na trincheira e tem a firmeza de barrar a barbárie no momento exato em que a história ainda permite lutar.