Dolce Toscana
Na penumbra do velho celeiro de pedra dos Rossi, o cheiro doce de feno seco misturava-se ao aroma penetrante do azeite recém-prensado e da chuva miúda que começava a bater nas telhas. Lá fora, o vento frio do outono toscano de 1962 uivava entre os ciprestes; no interior, sobre uma manta pesada de lã estendida junto às sacas de trigo, o ambiente era de puro calor e entrega.
Giulia havia corrido a pesada tranca de madeira com as próprias mãos para roubar aquela noite do resto do mundo. Ali, sem a pose intocável de filha do comerciante mais influente da região, desfazia-se de qualquer defesa. Suas mãos subiram devagar pelo peito de Giovanni, sentindo a batida descompassada do coração dele sob o linho grosso. Quando seus lábios se encontraram, não houve hesitação: havia a sede acumulada de semanas de olhares contidos na saída da missa e o desespero doce de quem desafiava a ordem de San Gimignano.
Giovanni desabotoou com cuidado a gola do casaco de Giulia, os dedos roçando suavemente a pele tépida do pescoço dela. O contraste era evidente: as mãos dele, marcadas pela lida diária na terra e pela calosidade do cabo das tesouras de poda, tocavam-na com uma delicadeza reverente, como quem colhe o primeiro cacho perfeito da vindima. Quando deslizou a mão por seu ombro, puxando o tecido pesado para o lado, Giulia fechou os olhos, inclinando a cabeça para acolher o toque dele contra sua têmpora.
— Você me faz esquecer até do vento lá fora — sussurrou ela, abrindo os olhos e encontrando a firmeza do olhar escuro de Giovanni.
Ela levou as mãos ao peito dele, sentindo sob o linho a batida forte e compassada de seu coração. Não havia mais a timidez dos degraus da igreja, nem a vigilância do armazém da família Rossi. Com movimentos lentos e seguros, Giulia afastou a camisa dele, deixando que os dedos percorressem os ombros largos e as costas aquecidas pelo esforço da vinha.
Giovanni envolveu-lhe a cintura, puxando-a para junto de si até que a respiração dela tocasse diretamente seus lábios. O primeiro beijo dessa entrega foi demorado, provando a boca um do outro sem pressa, reconhecendo cada detalhe no silêncio entrecortado pelo aroma doce da palha e o calor da pele. Ele desceu os lábios pela linha da mandíbula, demorando-se na curva suave da garganta, onde o pulsar do sangue denunciava o desejo contido.
Sob o peso protetor da lã grossa, os corpos se acomodaram com a naturalidade de quem se escolhe por inteiro. Cada movimento era cadenciado pela respiração cúmplice, sem atropelos ou gestos vãos. Giovanni sustentava o próprio peso com os antebraços na manta para não oprimi-la, os olhos fixos nos dela, buscando em cada suspiro a confirmação daquela entrega mútua. Giulia enlaçou-lhe o pescoço, puxando-o para si, unindo as respirações em um ritmo profundo e constante que ecoava pelo rincão escuro do celeiro.
Ali, naquele refúgio simples de trigo e alfaias rústicas, não existiam sobrenomes nem as exigências severas do Signor Bernardo. Havia apenas o contato cru e doce de duas pessoas que transformavam o perigo da descoberta em ternura absoluta. Giovanni acariciava os cabelos escuros de Giulia espalhados pela manta, beijando-lhe a testa e as têmporas a cada vez que ela arfava contra seu peito, selando em silêncio um compromisso que nenhuma palavra de comerciante poderia desfazer.
Quando o ímpeto finalmente cedeu lugar a uma lassidão tépida e serena, ficaram colados sob a lã, a pele úmida esfriando devagar contra o ar da noite, os dedos entrelaçados sobre o feno. Foi nesse instante de descanso absoluto que um raio de luz cortou a escuridão pelas frestas altas: o farol de uma lanterna a querosene e o som inconfundível de passos pesados arrastando a brita do pátio exterior.
A tranca externa do galpão rangeu, uma silhueta atarracada parou por alguns segundos diante da porta entreaberta de ventilação, tossiu forte de propósito e seguiu em direção à casa principal. Giulia congelou com a respiração presa, o coração aos saltos.
— Meu Deus, Giovanni... — murmurou ela, a voz rouca colada ao peito dele, o calor do medo substituindo o torpor. — Meu pai. Ele veio fechar a água do tanque. Ele viu a tranca frouxa e a lanterna acesa lá dentro. Domingo ele quer você na nossa mesa... e agora a conversa vai ser muito pior.
Giovanni envolveu-a ainda mais nos braços, beijando o topo de sua cabeça com calma inabalável:
— Eu conheço o meu lugar, Giulia. E agora temos um motivo a mais para não baixar a cabeça. No domingo eu vou.
Na manhã seguinte, a paisagem despertou sob a geada fina e o céu cor de chumbo. Nas colinas, os galhos secos da uva Sangiovese estalavam sob as tesouras de poda. Três rapazes de vinte e cinco anos cumpriam a tarefa vestidos com calças de veludo cotelê, boinas de lã e blusas grossas: Marco, Matteo e Giovanni.
Amigos desde a escola, mantinham a velha tradição italiana de discutir por tudo com braços gesticulando no ar, usando o atrito diário como prova de lealdade. O assunto daquela manhã, no entanto, era o almoço do dia seguinte.
Marco puxava a conversa soltando a corda da hesitação:
— O velho Bernardo é dono de armazém e quer garantias, Giovanni. Ele pensa em contratos e terras. O mais prudente é você adiar esse almoço até a próxima safra, para não entrar na casa dele em desvantagem.
Matteo, soltando a fumaça de um cigarro sem filtro com pose de valentão, rebatia na hora:
— Conversa mole! Você tem que chegar buzinando a moto, falar grosso e deixar claro que a Giulia é a mulher que você quer. Comerciante rico só respeita quem peita no grito!
Giovanni limpava a lâmina da tesoura com uma pedra de amolar, ouvindo tudo em silêncio. A lembrança do calor de Giulia na noite anterior tornava toda aquela gritaria inútil.
O ronco de uma motoneta interrompeu o debate. Giulia estacionou a Lambretta junto à cerca. Desceu apressada sob o capote verde-garrafa, o rosto tenso e as faces coradas pelo frio e pela aflição. Aproximou-se de Giovanni a passos largos, ignorando os outros dois:
— Giovanni, a situação em casa está insuportável — disse ela, a voz baixa e urgente. — Meu pai tem certeza de que aconteceu alguma coisa ontem à noite. Ele passou a manhã inteira no armazém me fuzilando com os olhos e soltando indiretas na frente de todo mundo! Disse alto, para a vizinhança ouvir, que 'palha seca perto de fogo sempre acaba em cinza', e perguntou se eu precisava de um relógio novo para saber a hora de voltar para dentro de casa. Quando me serviu o café, ainda soltou que tem gente colhendo uva antes da vindima e que domingo ele vai acertar essa balança!
Marco ergueu as mãos para o céu, alarmado:
— Não falei? Prudência, Giovanni! O velho já está armado até os dentes!
Matteo deu um passo à frente, gesticulando:
— É briga! Vá lá, peite o homem e mostre quem manda!
Giovanni cravou a tesoura no mourão de madeira com um golpe seco. Tirou as luvas e segurou com calma as duas mãos frias de Giulia:
— Olhe para mim, Giulia. Deixe o seu pai soltar o veneno que quiser. Eu não vou pedir esmola a ele nem invadir a casa de vocês aos berros. Domingo, ao meio-dia, eu bato na porta. Vou de cabeça erguida, como um homem que trabalha, tem honra e assumiu uma escolha por você. Confie em mim.
A firmeza serena de Giovanni desfez o pânico nos olhos da moça. Ela respirou fundo, recuperando o prumo, e antes de montar de volta na Lambretta, lançou um olhar ferino para Marco e Matteo:
— É melhor vocês dois guardarem essas certezas para o ano que vem. Minha irmã Stella vai fazer dezoito anos e anda comentando na cozinha sobre um de vocês dois... Quero ver se esse falatório todo resiste cinco minutos diante do olhar do meu pai quando ele chamar para a lida. Só não me disse ainda qual dos dois ela escolheu primeiro!
A motoneta arrancou em velocidade. Marco empalideceu e Matteo perdeu a fala, apavorados com o risco concreto de entrarem na mira da família Rossi. Para Giovanni, porém, a faísca daquela provocação acendeu uma ideia:
— Se é para entrar na cova do leão — disse Giovanni, retirando a tesoura do mourão —, vocês vão comigo. Vocês não são cheios de opiniões sobre a família Rossi? Pois vão me dar apoio moral na mesa. E quem sabe um de vocês não descobre se a Stella estava falando sério?
Marco tremeu, mas o orgulho de Matteo falou mais alto:
— Eu não fujo de desafio nenhum! Se o almoço é de domingo, eu vou de terno novo e garanto que deixo o velho Bernardo no chão!
No domingo, ao meio-dia em ponto, o sino da igreja tocou as doze badaladas quando o eco de motores cortou o silêncio da colina. Não era apenas a Vespa de Giovanni: duas outras motos subiram a alameda em cortejo barulhento. Giovanni estacionou primeiro, impecável em sua camisa de linho bem passada, trazendo sob o braço uma garrafa de vinho tinto guardada há três safras em carvalho. Logo atrás vinham Marco e Matteo, produzidos da cabeça aos pés — Marco encolhido em um casaco apertado pelo nervosismo, e Matteo exibindo um paletó de linho claro, bigode aparado e o topete reluzindo na brilhantina.
Na varanda aberta do casarão de pedra dos Rossi, a mesa comprida estava posta diante da magnífica vista para as colinas e torres de San Gimignano. A família já estava a postos: o patriarca Bernardo Rossi presidia a cabeceira com seus suspensórios esticados e olhar vigilante; ao lado, a filha mais velha, Francesca, ajeitava os talheres com o marido Francesco — homem reservado e dedicado que cuidava dos olivais da família sob as constantes cobranças do sogro. Na outra ponta, a caçula Stella — morena de olhos vivos e expressão travessa — observavam a chegada com curiosidade acesa. Giulia, com um vestido floral elegante, prendeu a respiração.
Quando os três rapazes subiram os degraus de pedra juntos, Bernardo arregalou os olhos. Segurou os garfos no ar, olhou para Giovanni, depois para os dois acompanhantes emperiquetados e soltou uma bufada estupefata, batendo as palmas das mãos na mesa:
— Madonna mia! Mas o que é isso aqui? Uma delegação? Eu convidei um rapaz para prestar contas de homem para homem, e me aparece uma comitiva inteira de prontidão na minha varanda? Virou reunião de sindicato agora?!
Giovanni conteve o riso, manteve a compostura e cumprimentou a todos com respeito. Desviou os passos na direção da cozinha, onde Dona Sofia saía com uma travessa pesada de massa fresca fumegante, com o rosto corado pelo fogão.
Antes de qualquer atrito, Giovanni tomou a travessa com delicadeza:
— Com licença, Dona Sofia. Comida feita com esse capricho não deve queimar as mãos de quem cuidou do almoço a manhã inteira.
Pousou a travessa no centro da mesa e entregou a garrafa nas mãos dela:
— Reserva especial de três safras. Guardei para abrir ao lado de um prato feito por quem realmente honra a cozinha. Se a senhora aceitar a primeira taça comigo, meu domingo já valeu a subida da colina.
Dona Sofia abriu um sorriso largo, desarmada pelo gesto.
Mas o velho Bernardo não deixou o movimento passar. Empurrou a cadeira para trás, colocou-se em pé na cabeceira e encarou Giovanni de frente, sustentando a imponência de patriarca:
— Você sabe agradar as mulheres da casa, rapaz. Mas aqui quem responde pelo futuro da família sou eu. Minha filha cuida dos meus livros e vai herdar o armazém. O que um rapaz da vinha, que trabalha por safra, tem de concreto para garantir a ela?
Giovanni não recuou. Manteve-se de pé, ombros firmes, sustentando o olhar do velho com respeito absoluto, mas sem baixar a cabeça:
— O senhor construiu o armazém e tem todo o direito de zelar pelo que é seu, Signor Bernardo. Mas o meu ofício é a raiz de tudo o que o senhor comercializa. A terra exige paciência, braço forte e honra. Eu não vim pedir as suas posses nem viver à custa do seu teto. Vim oferecer à Giulia o trabalho das minhas mãos, a minha lealdade e uma vida construída passo a passo, de igual para igual.
Bernardo soltou uma gargalhada ríspida, apontando o dedo na direção de Francesco, que estava sentado quieto à mesa:
— De igual para igual? Pois olhe bem para o Francesco aqui! Ele sim entrou nesta casa com humildade, abaixou a cabeça, obedeceu às minhas ordens nos olivais e aprendeu que quem manda na mesa sou eu! Um genro precisa de submissão e gratidão, não de empáfia!
A alfinetada foi a gota d'água. Ofendido, Francesco aprumou a coluna e abriu a boca para rebater, mas Francesca levantou-se antes, com os olhos faiscando de revolta:
— Já chega, pai! O Francesco trabalha de sol a sol no azeite com o senhor, acorda antes do amanhecer e nunca faltou com o respeito a esta casa! O senhor não tem o direito de humilhar meu marido só para provar poder diante de visita!
Giulia deu dois passos à frente, alinhando-se à irmã e a Giovanni:
— A Francesca tem toda razão! Nós não somos mercadorias de armazém e ninguém aqui precisa viver de joelhos para merecer respeito! O Giovanni veio pelo trabalho dele, e se o senhor quer respeito, aprenda a valorizar os homens honestos que estão ao seu redor!
Bernardo, vendo a autoridade escapar diante das duas filhas e do genro, estreitou os olhos, cruzou os braços e apelou para a sua cartada definitiva:
— Muito bonito o discurso das duas! Mas vamos falar de fatos concretos, então! Na sexta-feira à noite, quando o vento soprava forte, eu fui conferir os trincos do galpão de azeite. E o que foi que a minha lanterna iluminou na manta de lã junto aos sacos de trigo? Duas sombras muito ocupadas medindo terreno antes da hora!
O ar na varanda congelou instantaneamente.
Giulia sentiu o sangue subir com tanta força que o rosto ardeu em um vermelho vivo, baixando a cabeça em choque e mordendo o lábio com força. Ao lado dela, Giovanni engoliu em seco, sentindo as orelhas queimarem na hora, pego em flagrante com as defesas totalmente desarmadas pela revelação pública das insinuações que Bernardo vinha cozinhando a fogo brando.
Bernardo bateu com a mão aberta no espaldar da cadeira, a voz ressoando como um trovão:
— Vocês acham que eu sou cego?! Pois fiquem sabendo: quem anda depressa demais na escuridão do celeiro tem que correr para a igreja na luz do dia! Esse namorico de vocês acabou na sexta-feira. Aqui debaixo do meu teto, isso agora é compromisso de casamento marcado! Ou assume diante do padre e do cartório, ou não pisa mais nem no parreiral!
Francesco deixou escapar uma risadinha cúmplice atrás do guardanapo, Francesca respirou fundo aliviada com a virada do jogo e Stella tapou a boca para conter o riso.
Matteo, que não sabia a hora de ficar quieto e achou que aquela confusão era a brecha ideal para demonstrar bravura e impressionar a filha mais nova, aproveitou o silêncio constrangido. Ajeitou o colarinho do paletó de linho, deu dois passos à frente, piscou abertamente para a caçula e soltou na sua voz mais empostada:
— Veja bem, Signor Rossi! Um homem não pode medir a grandeza do coração pela balança do armazém! E digo mais: se a beleza desta casa é herdada, a signorina Stella aqui presente merece um poema e um pretendente que não tenha medo de cara feia nem de tempestade!
Stella soltou uma risadinha divertida, disse corando na hora:
— Ora, pois eu sempre disse que os rapazes da Sangiovese eram muito mais corajosos do que os rapazes da cidade!
O velho Bernardo virou a cabeça com tanta violência que a veia do pescoço saltou, roxo de indignação:
— O quê?! Mas que desaforo é esse?! Além do podador fazer serão no meu celeiro, o comparsa vem passar cantada na minha caçula debaixo do meu teto?! Fora daqui, seu janota de brilhantina!
Marco, ao lado, empalideceu a ponto de virar cera de vela, puxando a manga de Matteo em desespero sussurrado:
— Eu avisei! Eu falei que a gente ia sair daqui amarrado numa saca de adubo! Cala a boca, Matteo!
A confusão estava armada para virar briga generalizada quando Dona Sofia perdeu a paciência de vez. Pegou uma colher de pau pesada e bateu três vezes com força estrondosa na borda da panela de ferro:
— BASTA! SILÊNCIO NESSA CASA!
O estrondo fez os pássaros debandarem do parreiral.
— Chega de galo cantando no meu terreiro! — ralhou Dona Sofia, fuzilando a todos com o olhar. — Bernardo, feche a boca e sente nessa cadeira antes que o sangue suba à cabeça e eu tenha que chamar o médico! Giulia, pare de arder e ajeite os pratos! Menino de paletó claro, guarde os poemas para a praça pública antes que eu mesma use a colher de pau nas suas costas! E Giovanni, abra logo esse vinho antes que a massa esfrie e vire argamassa! Aqui ninguém vai sair sem almoçar!
O pulso de ferro da matriarca quebrou o feitiço.
Bernardo soltou um suspiro pesado, encarou a filha e o pretendente com as bochechas ainda vermelhas do flagrante, olhou para a garrafa especial e, por fim, para o olhar sereno de Giovanni, que já puxava a rolha com um estalo limpo e sonoro. Um meio sorriso ranzinza, mas quase satisfeito, despontou sob o bigode cerrado do patriarca:
— Mulheres teimosas... E rapazes adiantados no serviço. Está bem! Sentem todos logo, antes que a patroa me ponha para dormir no paiol. Mas se esse vinho for vinagre, rapaz, eu mesmo compro a sua moto para você ir embora mais rápido. Sente-se logo.
— O vinho é de primeira, Senhor Bernardo. O senhor não vai se arrepender — respondeu Giovanni, recuperando o fôlego e quebrando o resto da tensão enquanto puxava a cadeira colada à de Giulia.
O almoço seguiu farto, com travessas cheias de tagliatelle fumegante, pão rústico mergulhado no azeite novo e risadas que aos poucos substituíram o constrangimento. Stella continuou trocando olhares furtivos com um Matteo bem mais comedido, enquanto Marco comia três pratos seguidos para aplacar o susto.
Ao final da refeição, quando as travessas já estavam raspadas e as taças esvaziadas, o velho Bernardo limpou o bigode com o guardanapo de pano e recostou-se na cadeira. Olhou demoradamente para Giovanni, depois para Giulia e virou-se para a esposa na cabeceira oposta:
— Sofia... no próximo domingo pode tratar de encomendar carne de vitela e preparar mais uma fornada dessa massa fresca. Avise que teremos visita. Quero os pais do Giovanni sentados exatamente aqui nesta mesa!
Dona Sofia ergueu uma sobrancelha, contendo o sorriso:
— E para que essa pressa toda, Bernardo?
— Porque esse casamento tem que sair antes que eu mude de ideia! — trovejou o velho, embora os olhos traíssem o tom severo com um brilho satisfeito. — Não quero rapaz rondando celeiro nem gastando azeite alheio sem aliança no dedo!
Bernardo levantou-se em toda a sua estatura, deu a volta na mesa com passos firmes e parou diante de Giovanni. O jovem pôs-se de pé na mesma hora. Sem dizer mais uma palavra sobre armazém ou terras, o velho abriu os braços pesados e puxou Giovanni para um abraço de urso, daqueles que tiram o fôlego com três tapas fortes nas costas — o selo definitivo de acolhimento na família Rossi.
Ainda segurando o genro pelos ombros, Bernardo virou a cabeça e chamou a filha:
— Venha cá, Giulia! Venha cá abraçar seu pai e esse rapaz antes que o vinho suba de vez à minha cabeça!
Giulia correu para os dois com o peito aliviado e os olhos brilhando. Envolveu os braços ao redor dos ombros fortes do pai e da cintura de Giovanni, unindo-se ao abraço enquanto a varanda inteira explodia em palmas e risadas. Naquele calor compartilhado sob o céu límpido de San Gimignano, não restavam dúvidas: a tempestade havia passado, e o caminho para o futuro deles estava abençoado e aberto.