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Aos seus olhos, você é útil ou inútil? O que importa isso?

Aos seus olhos, você é útil ou inútil? O que importa isso?
Fonte: Vecteezy

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Há um tipo de cansaço peculiar que não vem do esforço físico, mas de uma constatação silenciosa no fim do dia: você vai deitar exausto, sentindo que resolveu o problema de todo mundo, mas não viveu um único minuto para si mesmo.

Não importa o cenário. Pode ser a rotina implacável de um médico que passa doze horas tomando decisões que salvam vidas, ou o peso invisível de uma mãe que sustenta a sanidade e a estrutura de uma casa inteira. O sintoma é o mesmo: a sensação sufocante de que você deixou de ser uma pessoa e se transformou em uma "função". Você se tornou, aos olhos do mundo, apenas a sua utilidade.

O psiquiatra suíço Carl Jung dedicou grande parte da sua vida a estudar as partes de nós mesmos que escondemos para sobreviver em sociedade. Ele nos ensinou que, para darmos conta das exigências do mundo, criamos uma "Persona" — uma máscara.

Para o profissional de alta pressão, a máscara é a da infalibilidade. Para quem cuida da casa e da família, a máscara é a da doação incondicional. Nós vestimos essas máscaras com tanta perfeição e somos tão aplaudidos pela nossa eficiência, que esquecemos como tirá-las. O perigo não é usar a máscara; o perigo é quando a máscara gruda no rosto e você esquece quem era antes de colocá-la.

O preço da invisibilidade e o nascimento da Sombra

Quando você é reduzido à sua utilidade, um abismo se abre. Cada vez que você engole o próprio choro para não preocupar os outros, cada vez que ignora o próprio cansaço para resolver uma urgência alheia, você está empurrando a sua própria identidade para o escuro. Jung chamou esse lugar escuro de "Sombra".

A Sombra é onde guardamos tudo o que não cabe na nossa máscara de perfeição: os nossos medos, a nossa necessidade de descanso, os nossos sonhos abandonados e, principalmente, a dor de não nos sentirmos amados pelo que somos, mas apenas pelo que fazemos.

É por isso que, muitas vezes na faixa dos 40 ou 50 anos, uma angústia terrível bate à porta. A vida parece que passou sem ser percebida. Você olha no espelho e sente um vazio, um estado anestésico de "sentir nada". Essa não é uma crise de ingratidão, como a sociedade costuma julgar. É a sua Sombra gritando por espaço. É o seu corpo, exausto de segurar o peso do mundo, pedindo que você, finalmente, olhe para si.

O resgate pelo inútil

Na era do excesso e do capitalismo frenético, a resposta padrão para esse vazio seria tentar "otimizar" seu tempo livre, buscar um novo curso ou tentar ser ainda mais produtivo. O Desconectare propõe exatamente o oposto.

Se a sua dor nasce do fato de você ser excessivamente útil para os outros, a cura está em resgatar a beleza do que é "inútil" — ou seja, atividades que não servem para mais ninguém, apenas para ancorar o seu próprio coração no momento presente.

O antídoto para a abstração do estresse é o mundo físico. Quando a mente está exausta de ser a bússola de todo mundo, o resgate começa pelas mãos e pelos sentidos.

Pode ser o silêncio intencional de sovar a massa de um pão sentindo a textura da farinha, a sujeira de terra nas mãos ao replantar um vaso na sacada, ou o trabalho rigoroso de modelar uma cerâmica sem a intenção de vender ou exibir. Quando você toca a matéria, o mundo exterior silencia. A argila, a terra e o papel não exigem que você seja forte, não pedem que você resolva um problema e não medem a sua produtividade. A matéria simplesmente responde ao seu toque.

Nesses pequenos refúgios tangíveis, o choque do "sentir nada" se quebra. Você deixa de ser a função que exerce. Você não é mais o médico. Você não é mais a mãe. Você é apenas uma pessoa inteira, existindo no agora, curando a própria invisibilidade e lembrando, com delicadeza, que a sua vida também pertence a você.