Vivendo + 1/3
Cheguei aos 68 anos. Gosto de chamar essa fase de "os dois terços vividos". É curioso como só agora, olhando o tempo sob essa perspectiva, percebo que é viável viver mais um terço inteiro.
Eu mudei fisicamente para o interior da Serra da Bocaina, a 1.600 metros de altitude, e aqui isolado tenho a distância necessária de qualquer centro urbano. Aqui, consegui uma adaptação física e mental que me transformou. Hoje, sou uma pessoa contemplativa, tendo por companhia uma natureza que impõe seu próprio ritmo.
Estou envelhecendo, eu sei. Mas o ambiente da montanha favorece a introspecção, e dela nasceu uma vontade genuína de entender melhor a vida. De um jeito desapegado. Não há expectativas de resolver problemas do passado, nem a intenção de alinhar estratégias para o futuro.
Essa vontade é pura curiosidade. É a busca por compreender a nossa evolução sob a ótica das ciências humanas. O estudo aqui não é um hobby. É aprendizado ativo. É o desejo de conhecer melhor o Ser Humano apoiado pela lente do pensamento estruturado.
Nessa jornada, cada área do conhecimento tem sua função. A Filosofia é estrutural para investigar o entendimento do Ser. A Psicologia traz a dinâmica necessária para enxergar nossos padrões e auxiliar na reparação dos males comportamentais da sociedade atual. A História nos entrega os registros de todo o tempo passado. A partir dela, a Antropologia e a Sociologia promovem o conhecimento metodológico de como a comunidade humana se forma e opera.
Sim, tenho muita curiosidade e, agora, o tempo necessário para a pesquisa. O objetivo é prático: aprender como posso melhorar como pessoa para viver esse terço restante da melhor forma possível. E muito do que procuro não é novo. As respostas para várias das angústias sociais e psicológicas de hoje já foram dadas há mais de 2.700 anos.
Temos à disposição uma vasta documentação histórica. As antigas escolas filosóficas ousaram estudar o comportamento humano e registraram suas conclusões de forma clara. É enriquecedor reconhecer que toda a precisão desse pensamento milenar continua útil para os problemas da nossa sociedade contemporânea. Tenho dedicado parte do meu dia para aprender, reter e desenvolver esse conhecimento. O foco final é simplesmente ser um humano melhor.
Feito esse desabafo sexagenário, sinto a motivação de trabalhar pelo meu próprio crescimento. O registro dessa rotina diária compõe os artigos do Desconectare feitos por mim e pela Nádia Leonessa, uma grande amiga e terapeuta holística com um enorme conhecimento das dores humanas. Os textos são compartilhados digitalmente com um fim direto: oferecer espaço para quem quiser ler e refletir. Se o conteúdo fizer sentido para o leitor, a troca se justifica. É dessa forma que construo um final de vida lúcido, onde cada dia que ainda irei viver carrega um propósito claro e consciente.