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Infância Interrompida ?

o homem moderno demonstra comportamentos infantis prolongados. A causa dessa estagnação não é biológica. A causa é a ausência de ritos de passagem práticos.
Infância Interrompida ?
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Infancia interrompida
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Com muita frequência faço caminhadas pelas montanhas da Serra da Bocaina. A altitude de 1.800 metros impõe ter a consciência de que o condicionamento físico é no mínimo bom. Nessas caminhadas silenciosas, a introspecção ajuda a observar o mundo com recuo e clareza objetiva.

Quando olho para as gerações mais novas, faço uma análise temporal quase automática. Comparo o jovem de hoje com a minha própria vivência na adolescência. A constatação é visual: o homem moderno demonstra comportamentos infantis prolongados. A causa dessa estagnação não é biológica. A causa é a ausência de ritos de passagem práticos.

Para explicar o que é um rito de passagem precisamos voltar no tempo. Escolho a cultura dos índios Lakota, nativos da América do Norte. Eles não terceirizavam o amadurecimento ao acaso ou à economia. Eles utilizavam a "Busca da Visão". O jovem era retirado de sua aldeia e deixado sozinho em uma montanha. Ele permanecia isolado por dias, enfrentando o jejum e a exposição ao clima. O objetivo prático era forçar o confronto com a própria mente e com a natureza. Não havia proteção dos pais. O rapaz entrava na floresta como um dependente e retornava como um adulto, assumindo cotas de caça e deveres de defesa. A tribo exigia a morte simbólica da infância para garantir a sobrevivência do grupo. De fato, era uma cerimônia severa para forçar o fim da infância. Na nossa civilização ocidental recente, esse rito já não envolvia florestas ou privações físicas extremas.

O ritual era o choque direto com a realidade material. Era a exigência de autonomia e o início do trabalho.
Um rito de passagem é o marcador exato onde a dependência termina e a responsabilidade começa.

Hoje, esse marcador desapareceu. Para entender a falta que ele faz na estruturação da mente, volto ao início da década de 1970.
Lembro dos meus 12 anos. Foi nessa idade que comecei a trabalhar formalmente como office boy. Aquele foi o meu rito de passagem. A rua impôs o atrito necessário para o meu amadurecimento. Meus pais forneciam a estrutura básica: teto e alimento. O essencial para a sobrevivência estava coberto, mas qualquer desejo além disso era responsabilidade minha. A emancipação financeira precisava começar cedo.
Eu queria comprar uma bicicleta. O caminho natural não foi pedir o dinheiro em casa. Fui até as Lojas Eletro-Radiobraz e escolhi uma Caloi Berlineta. Fiz um crediário longo, dividido em 24 vezes. O detalhe fundamental daquela operação de crédito define a diferença de épocas. O que garantiu a compra foi o aval da minha mãe, mas o crediário saiu no meu nome. Foi a minha carteira de trabalho assinada que possibilitou a compra. O mercado confiou no meu esforço futuro. Eu assumi a dívida e o compromisso prático de quitá-la.

O processo de amadurecimento acelerou pela necessidade diária. Aos 14 anos, eu já pagava o meu próprio material escolar. Eu não gerava despesas extras para a família. Cuidar de um caderno ou de uma caneta era apenas uma questão de lógica. Se eu perdesse o material, o custo de reposição sairia do meu próprio salário. A relação de causa e efeito era imediata. O dinheiro não era um conceito abstrato ou um presente. Ele era o suor de um mês inteiro convertido em poder de compra.
O convívio diário com chefes e com as regras do comércio encerrava a psicologia do menino. A responsabilidade por boletos e por horários funcionava como o nosso ritual de transição. A comunidade cobrava postura. O ambiente não permitia a letargia ou a hesitação prolongada. A passagem para o mundo adulto ocorria na prática. Hoje, o cenário inverteu-se. O contraste com o jovem do século XXI é drástico.
A juventude atual está blindada contra esse atrito formador. A infraestrutura urbana fornece conforto contínuo. A tecnologia elimina o esforço físico da rotina. Os pais absorvem os impactos financeiros e as frustrações sociais de seus filhos por décadas. Não existe a necessidade imediata de assumir riscos reais ou de buscar o próprio sustento. Sem a cobrança estrutural do ambiente, a mente simplesmente estagna. O rito de passagem prático foi substituído pela proteção irrestrita.
A ausência desse marcador cria uma anomalia temporal. A adolescência estende-se até a terceira década de vida. O adulto cronológico mantém a dependência financeira e preserva a reatividade emocional da infância. O jovem do século passado precisava resolver problemas concretos na rua. O jovem atual foge do conflito presencial e busca refúgio nas telas. Quando contrariado, ele não argumenta com fatos ou com raciocínio lógico. Ele ofende à distância ou bloqueia o contato.
A falta de cobrança objetiva atrofia a resistência moral. O jovem moderno não suporta o tédio. Ele não consegue sustentar vinte minutos de silêncio sem recorrer ao telefone celular. O ócio funcional, que antes forçava a observação e o trabalho manual, cedeu lugar ao entretenimento ininterrupto. O consumo passivo de estímulos rápidos anestesia a percepção da realidade. A mente perde a capacidade de ler textos longos e de encadear pensamentos estruturados.
Quando removemos os obstáculos, eliminamos a principal ferramenta de desenvolvimento humano. A filosofia prática aponta que o caráter nasce da resolução de conflitos. A autonomia atrofia sem a resistência do peso. O sistema de consumo lucra com essa apatia generalizada. A economia moderna prefere um consumidor dependente de estímulos e vaidades a um adulto financeiramente emancipado.
A solução exige uma adaptação tática e voluntária. Não voltaremos para a década de 1970. As Lojas Eletro-Radiobraz não existem mais e o modelo de trabalho corporativo mudou. O adulto moderno precisa, portanto, fabricar o próprio rito de passagem de forma solitária. "A transição da mente reativa para a mente estruturada demanda a escolha deliberada pelo desconforto diário".
A independência financeira continua sendo o rito de passagem definitivo. A autonomia exige o enfrentamento objetivo dos custos da própria vida.

O jovem precisa assumir a autoria de sua rota. Ele deve pagar as próprias contas e recusar a proteção familiar excessiva. O ato de desconectar resgata essa mecânica de amadurecimento. Quando você desliga os dispositivos e impõe restrições, a realidade volta a cobrar postura e esforço.


A infantilização retrocede apenas quando a imposição da ordem torna-se voluntária. Você precisa assumir os riscos reais de suas escolhas. A maturidade não é um presente do ambiente ou uma consequência do tempo. Ela é uma conquista pessoal e metódica. O homem funcional forja a sua identidade enfrentando as consequências de seus atos, longe da proteção de terceiros e longe das simulações digitais.

Os estudos clínicos fundamentaram a assertividade deste tema. Para quem se interessar :

A obra central de Robert Moore sobre o tema, escrita em coautoria com o mitologista Douglas Gillette, chama-se "Rei, Guerreiro, Mago, Amante: A Redescoberta dos Arquétipos do Masculino Maduro" (título original em inglês: King, Warrior, Magician, Lover: Rediscovering the Archetypes of the Mature Masculine).

Foi este livro, publicado originalmente em 1990, que estruturou a tese da transição da psicologia do menino para a psicologia do homem adulto, mapeando as quatro energias fundamentais e suas respectivas sombras.