A Tarde no Paraíso
Por Laura Suri
Puxe a cadeira para perto da mesa. Beba um gole da água quente antes que a caneca esfrie na bancada. Hoje eu deixei de lado os manuais de história antiga, as notas de rodapé sobre o século passado e as citações dos textos de mosteiro que sempre usei para colocar as coisas no lugar. A conversa desta vez é direta, sem nenhum escudo protetor entre as frases.
Se você tem acompanhado as páginas que escrevo, já sabe o básico sobre a minha vida: completei cinquenta anos neste outono, moro sozinha num sobrado de vila no Bixiga, lavo o rosto apenas com água fria e estendo meu tapete de borracha sobre o chão de taco logo cedo, antes de a cidade começar a fazer barulho. O que eu vinha guardando em segredo — embora quem preste atenção às entrelinhas dos textos anteriores já tenha notado certas hesitações — é o motivo real de estar sentada diante desta folha em branco com tanta urgência no fim de tarde.
Descobri, faz poucas semanas, que a minha memória recente começou a falhar de forma definitiva.
Não começou com um estrondo. Foi a rotina desmanchando pelas beiradas, de maneira tão sutil que qualquer um acharia normal. Primeiro foram os tropeços comuns: a chave esquecida no trinco pelo lado de fora da porta; o livro que comprei pela segunda vez na Livraria da Vila sem notar que o mesmo exemplar já estava na minha estante; a panela deixada no queimador até a água secar e o ferro começar a estalar; o nome de um colega de trabalho com quem convivi por mais de quinze anos sumindo no meio de um cumprimento casual na calçada.
Eu dizia para mim mesma que era cansaço acumulado das aulas na universidade, noites mal dormidas, a idade avançando, as oscilações normais do corpo aos cinquenta. A gente inventa desculpas lógicas para não olhar de frente para o que assusta. Até o dia em que desci na estação Brigadeiro do metrô, onde passei a vida inteira subindo e descendo degraus, e simplesmente não reconheci a saída da rua. Fiquei parada junto à pilastra de concreto cinzento, o peito apertado, olhando para as pessoas subindo as escadas rolantes e sem saber se devia virar à direita ou à esquerda para voltar para casa. Demorou quase meia hora para a cidade se encaixar novamente na minha mente.
Foi aí que o Thiago percebeu que as minhas explicações sobre estafa e estresse não se sustentavam mais.
O Thiago é meu irmão mais novo. Nós somos apenas nós dois neste mundo desde que nossos pais morreram em um acidente na serra, há mais de vinte anos. Não temos outros parentes por perto; nós somos a única família um do outro. Ele conhece os meus silêncios mais longos, e eu conheço o jeito dele de disfarçar o sofrimento bancando o homem prático. Quando ele entrou na minha cozinha, encontrou prateleiras desorganizadas e viu os pequenos pedaços de papel que comecei a colar nas portas dos armários para lembrar onde guardava os pratos e as xícaras, ele não me fez perguntas. Só pegou na minha mão com força, puxou a carteira de identidade e marcou uma série de consultas e exames especializados.
Fomos a pé até o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, ali no Paraíso, a poucas quadras da minha casa. Subimos devagar pelas calçadas tranquilas do bairro, sob a copa das árvores antigas, mas a caminhada parecia pesada demais. O prédio moderno de concreto e vidro ficava a poucos minutos do meu portão, e ainda assim parecia um lugar distante, de onde ninguém volta exatamente o mesmo.
A sala do neurologista ficava no quinto andar do bloco ambulatorial. Era um ambiente muito claro, asséptico, com um silêncio pesado e aquele cheiro de antisséptico que faz o estômago contrair. O médico, um profissional experiente e de fala pausada, apoiou as lâminas da ressonância magnética contra o painel luminoso da parede. O meu cérebro aparecia fatiado em cortes horizontais, em tons de cinza, branco e preto.
Ele pegou uma caneta esferográfica, apontou a ponta plástica para o hipocampo, mostrou a redução do volume do tecido que não deveria existir em uma mulher de cinquenta anos e disse o nome da doença com voz serena, sem floreios: Doença de Alzheimer em fase inicial.
A notícia caiu como um bloco de chumbo sobre a mesa. Foi uma surpresa absoluta, daquelas que cortam a respiração e deixam a boca completamente seca. Nós tínhamos ido até ali esperando ouvir sobre falta de vitaminas, hipotireoidismo, sequelas de estresse crônico ou qualquer outra alteração tratável com algumas semanas de repouso e comprimidos comuns. Ninguém na nossa casa jamais teve demência. A possibilidade de um diagnóstico degenerativo aos cinquenta anos nunca havia passado pela nossa cabeça.
O que aconteceu nos segundos seguintes foi um apagão de tudo o que eu achava que sabia sobre mim mesma. Todo o rigor dos livros de história, as trinta turmas de graduação que formei, os séculos que passei a vida explicando e os textos de filosofia budista que li sobre desapego e transitoriedade evaporaram de uma vez só, virando fumaça rala na frente daquele painel de luz branca. Eu senti o chão sumir debaixo dos sapatos como se a gravidade da sala tivesse sido desligada. O corpo inteiro gelou, da nuca até a ponta dos dedos dos pés, e a única coisa que gritava dentro do meu peito era um pavor primitivo de ser apagada em vida, de perder o significado das palavras, de olhar para a estante de madeira da minha sala e não saber mais o que está escrito nos livros que amei, de me tornar uma sombra oca sentada numa poltrona vendo a própria história ser comida pelo esquecimento antes mesmo de envelhecer por completo.
Eu estava a um milímetro de desabar em pranto, de perder o ar e cair no chão daquele consultório. A minha garganta travou, a vista começou a escurecer pelas bordas e o choro subia rasgando o peito. Eu só não desmoronei por completo porque o Thiago caiu primeiro.
Ao ouvir o nome da doença, o meu irmão perdeu a cor do rosto em um instante. As mãos dele começaram a tremer de um jeito descontrolado, os joelhos bateram um contra o outro e ele desabou para a frente na cadeira, cobrindo o rosto com as duas mãos abertas. O Thiago chorou com soluços altos, dolorosos, com o desespero cru de quem vê o próprio teto desabar sobre a cabeça. Era o choro daquele mesmo menino que corria para o meu colo quando se machucava no quintal da nossa infância, só que agora não havia remédio para passar no machucado.
Ao ver o meu irmão naquele estado, algo dentro de mim se colocou de pé por puro instinto familiar. Mulher nenhuma consegue se permitir o luxo de quebrar quando a única pessoa que ela tem no mundo já está em pedaços ao seu lado. Segurei o choro que me rasgava por dentro, engoli o gosto amargo do pavor, levantei da cadeira e puxei o Thiago contra o meu peito ali mesmo, na frente da mesa do médico. Abracei a cabeça dele com força enquanto os ombros dele sacudiam com o choro. Eu não tinha respostas, não tinha promessas bonitas para fazer, mas precisava ser a rocha dele naquele instante, porque se nós dois caíssemos juntos, ninguém nos tiraria daquele chão.
Descemos a pé pelas calçadas do Paraíso quase sem trocar palavras. O Thiago segurava o meu braço com uma força exagerada, com medo de que eu tropeçasse em qualquer desnível do cimento. O ar da tarde estava fresco, mas parecia faltar oxigênio na cidade inteira. Quando finalmente alcançamos o portão de ferro do meu sobrado no Bixiga, parei os passos, puxei o rosto dele com as duas mãos, olhei bem fundo nos olhos dele ainda vermelhos e disse:
— Thiago, escuta o que eu vou te dizer. Eu ainda estou inteira aqui. A minha mente ainda pensa e o meu coração ainda sente. Nós não vamos nos entregar sem lutar. Nós sempre fomos nós dois contra tudo, e vai continuar sendo exatamente assim.
Decidi que não vou passar o tempo que me resta escondida dentro de um quarto escuro, esperando a névoa avançar e me levar embora. E é por essa razão exata que decidi trazer esta confissão para o papel.
Falar de Alzheimer a partir do olhar de quem está no início da doença não é uma invenção inédita, mas é um exercício renovador para quem precisa da própria escrita como tábua de salvação. Quando me sento diante deste caderno no fim da tarde, o trabalho de escolher as palavras, organizar as frases e puxar as lembranças funciona como uma terapia necessária e exigente. É a maneira que encontrei de me manter lúcida por mais tempo, forçando as minhas células a buscarem o conhecimento que a doença quer apagar. Escrever é o jeito de disputar palmo a palmo o meu próprio passado com o tempo.
E eu tenho ao meu lado o Moyse, um amigo leal de longos anos que sempre esteve presente nas curvas mais difíceis da minha vida. Quando contei a ele o resultado dos exames, o Moyse não recuou nem me tratou com piedade barata. Ele se propôs a acompanhar de perto todo este processo, estudando livros técnicos, pesquisas médicas e a progressão dos sintomas para me ajudar a manter o equilíbrio quando a minha cabeça começar a falhar. O nosso plano é transformar este caminho em uma série de registros e contar a história de outras mulheres que estão enfrentando as fases seguintes da doença, para que eu aprenda com elas a trilhar a minha própria despedida com dignidade.
Prometo a você que esta caminhada não será um velório antecipado. Minha vida foi cheia de causos curiosos, encontros inesperados, salas de aula cheias de vida e episódios humanos que guardei com cuidado e que pretendo dividir aqui antes que o silêncio chegue. Estarei presente uma vez por mês aqui no Desconectare, puxando uma cadeira para conversar com você com calma e sem máscaras.
A água da chaleira já ferveu e as xícaras estão servidas na mesa. O caminho pela frente é incerto e difícil, mas enquanto as palavras continuarem me obedecendo, eu estarei aqui todo mês, dividindo a verdade das coisas com quem quiser me ouvir.